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Resposta ao canal de YouTube "Física e Afins" - Oposição ao Novo Ensino Médio sem saber o que é o Novo Ensino Médio?


No dia 05 de março de 2024, o YouTube me recomendou um vídeo chamado "O NOVO ENSINO MÉDIO NÃO VALE NADA", do canal Física e Afins. Nesse vídeo, a Doutora em Física Gabriela Padilha Bailas, acredito que Licenciada na disciplina, reage assistindo um clipe de, aparentemente, outra rede social. Esse clipe trata-se de um Professor criticando o Currículo aplicado em uma Escola não identificada.

Porém, em ambas produções, tanto no clipe quanto no vídeo comentado, existem graves erros a respeito do formato do Novo Ensino Médio e da lógica educacional proposta pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação, LDB, Lei Nº 9394/96, pela Base Nacional Comum Curricular e pelo Novo Ensino Médio. Aqui tenho a preocupação, inútil, de ressaltar alguns dos erros apresentados. Articulei alguns materiais bem diretos que orientam a Educação.

O erro primordial é o que inicia o vídeo. O "Professor Luís" argumenta que aquele currículo escolar é definido pelo Novo Ensino Médio. Trata como se itinerários formativos e a aplicação curricular fossem dois elementos definidos pelo Ministério da Educação, que todas as Escolas de Norte à Sul tivessem que seguir de forma autoritária. Utiliza o termo pejorativo de "gradezinha do Novo Ensino Médio". Acrescenta ainda que "a gente alertou" que o Novo Ensino Médio "é uma vergonha, uma palhaçada, um atraso para a Educação".

"O estudante vai poder escolher entre cinco áreas de conhecimento [...] mentira, tá?", disse o Professor quando mencionava que os itinerários formativos podem "oferecer apenas uma área".  O Professor, no entanto, não se atentou para a própria afirmativa. Ele ressalta que "se a Escola quiser" pode oferecer uma área nos itinerários. Acontece que "se a Escola quiser" pode oferecer 2, 3, 4 ou 5. Não existe nenhuma orientação que vise prejudicar os objetivos pedagógicos das Escolas. Vejamos o que o Ministério da Educação explicita da forma mais direta possível a respeito disso:

"Os itinerários formativos podem se aprofundar nos conhecimentos de uma área do conhecimento (Matemáticas e suas Tecnologias, Linguagens e suas Tecnologias, Ciências da Natureza e suas Tecnologias e Ciências Humanas e Sociais Aplicadas) e da formação técnica e profissional (FTP) ou mesmo nos conhecimentos de duas ou mais áreas e da FTP. As redes de ensino terão autonomia para definir quais os itinerários formativos irão ofertar, considerando um processo que envolva a participação de toda a comunidade escolar" (Disponível em: http://portal.mec.gov.br/publicacoes-para-professores/30000-uncategorised/40361-novo-ensino-medio-duvidas).

Fica evidente que as Escolas são responsáveis pela construção de seus itinerários formativos. Ela possui a responsabilidade de construir democraticamente esses itinerários, pois precisa conhecer as necessidades da comunidade escolar.  O que o Novo Ensino Médio fornece são apenas Eixos Estruturantes para os Itinerários Formativos. Vejamos, em um material do CER (Centro Sebrae de Referência em Educação Empreendedora), o resumo oficial de tais Eixos (o material está totalmente condizente com o que mais recente está definido para o Novo Ensino Médio):

"Investigação científica, que abrange o aprofundamento de conceitos das ciências para interpretar ideias, fenômenos e processos que podem ser utilizados em diferentes processos de investigação, com foco na melhoria da qualidade de vida da comunidade.

Processos criativos, que abrangem o conhecimento científico na construção e criação de protótipos, modelos e experimentos que podem apoiar a solução de problemas da sociedade.

Mediação e intervenção sociocultural, que abrangem a mobilização de conhecimentos de uma ou várias áreas para auxiliar na mediação de conflitos e soluções para problemas da comunidade.

Empreendedorismo, que abrange conhecimentos de diferentes áreas que podem direcionar a formação de organizações com diferentes missões, com o foco de oferecer produtos ou serviços inovadores valendo-se da tecnologia." (Disponível no CER ou em:  https://drive.google.com/file/d/1mReN5pR5fD1Z2GiAPeAY3EzCjQEtSBGu/view).

Professores do Grupo SOMOS Educação apresentaram muito bem a lógica desses Eixos - que já é bem explícita nas próprias definições deles - em um vídeo online disponível aqui. É evidente que não é obrigatório a Escola oferecer um itinerário chamado "Empreendedorismo" ou "Investigação Científica". Esses são apenas Eixos. Um Itinerário Formativo é um percurso de formação, no qual existirão disciplinas, oficinas, etc. É possível, por exemplo, no Eixo de Investigação Científica criar um Itinerário Formativo de "Pesquisas científicas baseadas em itens do Enem". Dentro desse itinerário fornecer oficinas como "O que é Ciência?", "Resolução de itens do Enem e compreensão de seus conceitos científicos", ou mesmo disciplinas como "Lógica dos itens do Enem", "Experiências científicas básicas fundamentadas em itens do Enem" ou "Astronomia e Enem". No Eixo de Empreendedorismo é possível um Itinerário de "Meu lugar e atuação no mundo", com oficinas de "Escrevendo meu primeiro livro digital", disciplinas como "Filosofia de vida e planejamento de futuro", oficinas de "Negócios, Leis e impostos".  As oportunidades são enormes e nada limitantes. A Escola quer orientar os Itinerários para maior foco nas disciplinas convencionais? Podem. Querem criar disciplinas para os alunos compreenderem como funciona a Política oficial? Podem.

Agora, observemos o que a Base Nacional Comum Curricular orienta para o Ensino Médio:

"Nesse sentido, cabe às escolas de Ensino Médio contribuir para a formação de jovens críticos e autônomos, entendendo a crítica como a compreensão informada dos fenômenos naturais e culturais, e a autonomia como a capacidade de tomar decisões fundamentadas e responsáveis. Para acolher as juventudes, as escolas devem proporcionar experiências e processos intencionais que lhes garantam as aprendizagens necessárias e promover situações nas quais o respeito à pessoa humana e aos seus direitos sejam permanentes. Em lugar de pretender que os jovens apenas aprendam o que já sabemos, o mundo deve lhes ser apresentado como campo aberto para investigação e intervenção quanto a seus aspectos sociais, produtivos, ambientais e culturais. Desse modo, a escola os convoca a assumir responsabilidades para equacionar e resolver questões legadas pelas gerações anteriores, valorizando o esforço dos que os precederam e abrindo-se criativamente para o novo." (BNCC - Ensino Médio, p. 464). 

Em outros momentos do clipe, o Novo Ensino Médio é descrito como um modelo criado para deixar alunos sem "senso crítico". Mas como isso é possível se em todos os documentos, desde a LDB, isso é definido como objetivo da Educação e de todas as disciplinas (convencionais ou não) do currículo? Basta atentar para a proposta da BNCC sobre a formação dos estudantes do Ensino Médio que articule áreas do conhecimento:

"Laboratórios: supõem atividades que envolvem observação, experimentação e produção em uma área de estudo e/ou o desenvolvimento de práticas de um determinado campo (línguas, jornalismo, comunicação e mídia, humanidades, ciências da natureza, matemática etc.).

Oficinas: espaços de construção coletiva de conhecimentos, técnicas e tecnologias, que possibilitam articulação entre teorias e práticas (produção de objetos/equipamentos, simulações de “tribunais”, quadrinhos, audiovisual, legendagem, fanzine, escrita criativa, performance, produção e tratamento estatístico etc.).

Clubes: agrupamentos de estudantes livremente associados que partilham de gostos e opiniões comuns (leitura, conservação ambiental, desportivo, cineclube, fã-clube, fandom etc.).

Observatórios: grupos de estudantes que se propõem, com base em uma problemática definida, a acompanhar, analisar e fiscalizar a evolução de fenômenos, o desenvolvimento de políticas públicas etc. (imprensa, juventude, democracia, saúde da comunidade, participação da comunidade nos processos decisórios, condições ambientais etc.).

Incubadoras: estimulam e fornecem condições ideais para o desenvolvimento de determinado produto, técnica ou tecnologia (plataformas digitais, canais de comunicação, páginas eletrônicas/sites, projetos de intervenção, projetos culturais, protótipos etc.).

Núcleos de estudos: desenvolvem estudos e pesquisas, promovem fóruns de debates sobre um determinado tema de interesse e disseminam conhecimentos por meio de eventos – seminários, palestras, encontros, colóquios –, publicações, campanhas etc. (juventudes, diversidades, sexualidade, mulher, juventude e trabalho etc.).

Núcleos de criação artística: desenvolvem processos criativos e colaborativos, com base nos interesses de pesquisa dos jovens e na investigação das corporalidades, espacialidades, musicalidades, textualidades literárias e teatralidades presentes em suas vidas e nas manifestações culturais das suas comunidades, articulando a prática da criação artística com a apreciação, análise e reflexão sobre referências históricas, estéticas, sociais e culturais (artes integradas, videoarte, performance, intervenções urbanas, cinema, fotografia, slam, hip hop etc.)." (BNCC - Ensino Médio, p. 472)

Como é possível, depois de ver que tudo isso não apenas é permitido, mas incentivado pelos documentos oficiais, dizer que o objetivo é criar indivíduos sem "senso crítico" e para prejudicar os alunos? As propostas da BNCC e Novo Ensino Médio já eram comuns nas Escolas mais caras do Brasil muito antes da BNCC ou Novo Ensino Médio serem promulgados. Isso ocorre porque a Escola tem grande autonomia na Educação que fornece desde o século passado. Não existe modelo rígido de como uma Escola deve atuar pelo menos desde a promulgação da LDB.

Porém, muitos professores e alunos aparecem reclamando de que a Escola ofereceu disciplinas ruins por culpa do Novo Ensino Médio. Existe um grande problema nessa afirmação. Afinal, todos os documentos oficiais definem que a Escola é que cria seus Itinerários. Por isso não pode ser o modelo de Ensino Médio que cria itinerários para os quais, segundo o vídeo, os professores não estão preparados e são obrigados a ministrar. A partir do momento em que os itinerários são construídos de forma Democrática, os Professores, alunos, pais e demais interessados foram escutados e realizaram propostas. Caso tenham definido que a Comunidade Escolar precisa de um itinerário para o qual os docentes não estão preparados, a Escola possui autonomia de solicitar formação para a Secretaria de Estado ou solicitar outro profissional - formado ou notório saber - para fornecer tal itinerário. Caso a Escola defina que precisa de uma disciplina de "Agricultura local" e os professores acreditam não possuir o conhecimento necessário, é possível articular a contratação de um membro da Comunidade Escolar (como pais de alunos) que trabalhe com Agricultura local e possa - com algum auxílio - oferecer essa formação a partir de seu notório saber no tema. A Escola não precisa se submeter aos possíveis itinerários pré prontos indicados pelas Secretarias. Estas só possuem o Direito de sugerir. A aplicação final deve levar em conta a posição da Escola.

A questão fundamental é a Gestão, que deve ser Democrática e consciente de seus objetivos. Vejamos o que a LDB falava sobre uma Gestão Democrática:

Art. 14. Os sistemas de ensino definirão as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica, de acordo com as suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios:

I - participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto pedagógico da escola;

II - participação das comunidades escolar e local em conselhos escolares ou equivalentes.

[...] 

Art. 26.  Os currículos da educação infantil, do ensino fundamental e do ensino médio devem ter base nacional comum, a ser complementada, em cada sistema de ensino e em cada estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e dos educandos. [a redação de 2013 mudou apenas o termo "clientela" para "educandos", mas o geral deste texto vigorava desde 1996]  

Já se definia grande autonomia para as escolas e o fundamental papel da Gestão Democrática. A nova redação da LDB, de 2023, deixou ainda mais claro a grande responsabilidade e autonomia da Escola perante o processo educacional que oferece. A LDB prevê:

Art. 14. Lei dos respectivos Estados e Municípios e do Distrito Federal definirá as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica, de acordo com as suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios:

I - participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto pedagógico da escola;

II – participação das comunidades escolar e local em Conselhos Escolares e em Fóruns dos Conselhos Escolares ou equivalentes.

§ 1º O Conselho Escolar, órgão deliberativo, será composto do Diretor da Escola, membro nato, e de representantes das comunidades escolar e local, eleitos por seus pares nas seguintes categorias:

I – professores, orientadores educacionais, supervisores e administradores escolares; 

II – demais servidores públicos que exerçam atividades administrativas na escola;

III – estudantes;

IV – pais ou responsáveis;

V – membros da comunidade local.

Esses grupos citados formam a Comunidade Escolar. Eles todos devem ter a voz aceita na formação do processo educacional fornecido pela Unidade de Ensino. A Escola tem a responsabilidade de consultar a Comunidade Escolar, mesmo aqueles que não façam parte oficialmente do Conselho, para orientar seu percurso formativo. Entre essas orientações está a dos Itinerários Formativos e, muito mais importante, está a elaboração do Projeto Político Pedagógico da Escola, que será mencionado a seguir. 

No vídeo, a Doutora em Física menciona que "Todas as escolas do Brasil têm que seguir a BNCC [...] só para deixar bem claro isso". Fato. Porém, Base Nacional Comum Curricular não é Currículo, muito menos Projeto Político Pedagógico. O documento mais importante, a espinha dorsal, de uma Escola é o seu Projeto Político Pedagógico. Afinal:

"A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), em seus artigos 12, 13 e 14, atribui aos estabelecimentos de ensino a incumbência de elaborar e executar, de forma democrática, seus Projetos Pedagógicos. Este documento deve nortear todas as ações pedagógicas de cada instituição e se mantém em permanente discussão e reformulação, na busca de alternativas que possam viabilizar a melhoria da qualidade do ensino" (Ministério da Educação. Disponível em: https://www.gov.br/ines/pt-br/acesso-a-informacao-1/acoes-e-programas/programas-projetos-e-acoes/projeto-politico-pedagogico-ppp).

Para ver o quão fundamental é o PPP, sem o qual a Escola não sabe o motivo de sua existência, basta ver o belo trecho do modelo de PPP, apresentado pelo MEC, quando ele afirma que:

"Embora a lei fale em projeto pedagógico, não se constrói um projeto sem uma direção política, ou seja, um norte, um rumo a ser seguido. Por isso, todo projeto pedagógico é também político. Assim, o Projeto Pedagógico visa orientar todo o esforço de aperfeiçoamento das ações de formação dos alunos e serve de referência a todos os atores institucionais em relação às possibilidades de construção do perfil intelectual e/ou profissional dos estudantes." (INSTITUTO NACIONAL DE EDUCAÇÃO DE SURDOS PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO DO COLÉGIO DE APLICAÇÃO. Disponível em: https://www.gov.br/ines/pt-br/acesso-a-informacao-1/acoes-e-programas/programas-projetos-e-acoes/ppp_ines.pdf)

Esse modelo de Projeto Político Pedagógico, disponível integralmente no link anterior, deixa muito evidente que sem ele uma Escola não sabe o motivo de existir e para que rumo está direcionando os alunos. O Novo Ensino Médio deixa mais evidente o papel fundamental dos Projetos Políticos Pedagógicos quando menciona:

"Os currículos de referência das redes e os Projetos Pedagógicos das escolas que irão definir a organização e a forma de ensino dos conteúdos e conhecimentos de cada um desses componentes, considerando as particularidades e características de cada região" (Ministério da Educação. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/publicacoes-para-professores/30000-uncategorised/40361-novo-ensino-medio-duvidas).

O Professor do clipe e a Dra. do vídeo demonstram desconhecimento total sobre todas as orientações aqui apresentadas - que são básicas para qualquer Gestor ou Professor. O Professor menciona que "Projeto de Vida" é um tema genérico, logo após ter mencionado que o Terceiro Ano é importante para o aluno pensar os rumos da própria vida. Também menciona como genérico o itinerário de "Sociedade Brasileira: passado e futuro", um itinerário que obviamente é uma proposta de articulação das disciplinas de Humanidades, como Filosofia, História, Geografia e Sociologia. O curioso é que menciona isso depois de dizer que História e Geografia foram retiradas do currículo da Escola em questão. Enfatiza revolta também com o aumento da carga horária, que segundo ele impediria um aluno de trabalhar. Porém, como já ficou evidente aqui, a Escola possui total autonomia para solucionar uma questão tão simples como essa, seja reconhecendo o trabalho do aluno como parte de sua formação integral como indivíduo (e com isso cumprindo carga horária) ou de outras formas que forem mais adequadas aos interesses do aluno e PPP.

"Até então o aluno não saía [do Ensino Médio] preparado para nada? [...] O outro era o que, uma perda de tempo?". Para a maioria dos alunos, sim. Infelizmente. Isso ocorre, principalmente, porque os Gestores e Professores não se preocupavam em perguntar aos alunos: "Quem é você, e o que você pensa sobre e para a sua vida?". A prova disso é que um número enorme de Professores afirmam abertamente não estarem preparados para auxiliar um aluno para os caminhos que ele pretende seguir na vida, quando dizem que não foram preparados para ministrar "Projeto de Vida". Quando consideramos que qualquer disciplina de Filosofia da Educação e os documentos desde pelo menos 1996 já orientam sobre a importância da Escola considerar o que pensam os alunos sobre sua vida e auxiliar nisso: Temos que reconhecer que um Professor não preparado para ministrar "Projeto de Vida" nunca esteve preparado minimamente para participar como Professor no processo de Educação.

O Novo Ensino Médio e a BNCC obrigam - como já fazia a LDB - que as Escolas se importem com o que os alunos pensam e querem em suas vidas. Por isso, é completo desconhecimento do funcionamento básico da Educação no país culpar o Novo Ensino Médio pelo Currículo aplicado na Escola sem nem mesmo mencionar o conteúdo do Projeto Político Pedagógico da mesma Escola. Caso não exista PPP ou o Professor desconheça o conteúdo presente nele, aquele Professor e aquela Escola não compreenderam o básico sobre o Novo Ensino Médio. E, para compreender, não era de fundamental importância nenhuma formação longa e complexa ofertada pelo MEC (que se dispõe ainda hoje a ofertar) ou Secretarias de Educação (que também podem ser solicitadas), pois bastava ler os documentos básicos.


Clamo, inutilmente, para que no mínimo os Professores e Gestores leiam os documentos básicos:

Lei de Diretrizes e Bases da Educação:

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm

Base Nacional Comum Curricular:

- Ensino Fundamental - 

https://drive.google.com/file/d/15WH_Ujh9-5-e9FmFQHYRAgZkEjo6TkDV/view

- Ensino Médio - https://drive.google.com/file/d/1qm45nsIz2b-Uvv7a-F-Mvg6vxXDsi33x/view

Documentos de orientação sobre o Novo Ensino Médio:

- Itinerários formativos: https://nossoensinomedio.org.br/wp-content/uploads/2021/04/texto-O-que-sao-os-eixos-estruturantes.pdf

- Lógica Democrática: https://drive.google.com/file/d/1QNuYTcofCqcZ3Af-9j26lRMCiNVUkpst/view

Currículos Estaduais: Ficam abertamente disponibilizados por cada Estado [basta buscar na internet ou enviar e-mail para a Secretaria de Educação solicitando, mas é algo que deveria estar disponível na Escola]. Coloco de exemplo apenas o Currículo daqui do Estado do Pará [que muito me incomoda por ser abertamente baseado em Paulo Freire e Antônio Gramsci, dois autores que baseiam toda sua Educação na lógica marxista. Mas sei que ele não é uma camisa de forças para as escolas e permite liberdade aos Gestores e Professores, principalmente por conta do PPP, algo ressaltado no próprio Currículo do Pará]:https://www.seduc.pa.gov.br/site/public/upload/arquivo/probncc/ProBNCC_DCEPA-12072021_compressed-3b8b0.pdf

Projeto Político Pedagógico: A maioria das Escolas nem possuem, mas é obrigação mínima delas construir um Democraticamente, pois uma Escola sem PPP não sabe o motivo de existir. Esse é o documento mais importante para a prática Educacional. É com ele que a Escola define seu processo educativo. Ele deve expressar as necessidades da comunidade escolar, visão filosófica da Educação naquela unidade, e forma de aplicar o Currículo considerando as necessidades particulares daquela Escola específica.



COP 30 em Belém do Pará, aqui na Amazônia, não serve para nada?

 

Tela de site Agência Pará, publicação sobre projeto do Estado do Pará para Educação Ambiental




Quando a COP 3 foi anunciada em Belém, aqui no Pará, o primeiro pensamento que tive foi "A cidade não tem suporte para um evento desses". Como morador de Ananindeua, cidade colada a Belém, e frequentador da cidade, facilmente se percebe que a capital do Pará terá que mudar muito para ser uma cidade com capacidade, utilitária e de beleza, em receber um evento como o COP 3. Os planos já estão sendo montados. Acredito que a ideia de uma cidade conectada seria o ideal (conectando Belém, por rios e estradas, com as cidades próximas, como Bragança, Barcarena, Marituba, Castanhal, Mosqueiro... Acredito que Ananindeua teria de se reestruturar grandemente para ser uma dessas, e deve!) para conseguir auxiliar no recebimento do evento (o evento de ontem - 26/06/23 - do Governo do Estado mencionou essa estratégia - ver: https://www.youtube.com/watch?v=80oBSZdNnwg). O que seria um ótimo incentivo para algo que já deveria ter um foco bem maior na região há tempos: transporte por vias fluviais.

Em seguida, fiquei refletindo sobre a utilidade prática do evento. Serve para algo? Não estou pensando como alguns comentadores que bradam ser um evento inútil por "Querer dizer o que o Brasil deve fazer com a Amazônia". Creio que é um pensamento de desconhecimento e que não possui a mínima preocupação com - ou entendimento da importância em todos os setores - a questão ambiental. Minha reflexão é outra.

Há algum tempo penso que os eventos internacionais que discutem a questão ambiental não surtem muito efeito prático. Tornam-se apenas discussões sem muita utilidade prática. Existe a possibilidade de países como o Brasil pressionarem por investimentos internacionais. Principalmente sendo sede do evento. O fundo prometido para o país não saiu, a expectativa é que venha nas próximas COP ou na COP 30. Caso a COP 30 não resulte em grande aporte de recursos internacionais para o Brasil caminhar para mais sustentabilidade, o campo de pesquisa em Ambiente, Educação Ambiental e Tecnologia Sustentáveis no Pará não se torne referência no Brasil e mundo, a COP se firmará como uma grande inutilidade.

No lugar de metas internacionais, acredito que para países como o Brasil o mais importante são as discussões e atuações regionais e locais. Uma política de Educação Ambiental foi divulgada pelo Governo do Pará em junho de 2023. Ela apresenta soluções regionais e locais muito boas como o Programa Dinheiro na Escola Paraense, com repasse de verbas diretamente para as escolas (o que anularia o discurso de que Educação Ambiental não é realizada na escola por falta de verbas do Governo). Apresenta coisas duvidosas, como a criação de disciplina obrigatória de Educação Ambiental. A Política Nacional de EA proíbe isso. E creio que o incentivo e empenho do Governo deveria ser para a transversalidade da Educação Ambiental e não criação de disciplina específica. A temática ambiental pode e deve estar presente em todas as disciplinas. Nenhum conteúdo seria perdido para isso ser realidade. Os professores precisam de formação continuada que mostre na prática como inserir essa temática em suas aulas. As escolas devem ser orientadas a funcionarem de uma forma mais orgânica, conhecendo seus objetivos (expostos inclusive em seu Projeto Político Pedagógico, que deve ser elaborado democraticamente pela comunidade escolar). A Educação e prática sustentáveis estão sendo fortemente incentivadas com essa Política. 

Eventos municipais que discutam e proponham soluções para a questão ambiental também são fundamentais. Incentivar a mobilização de grupos, como pequenos pelotões, que discutam e proponham dentro da temática é crucial para a realidade de melhorias em nossa relação com o Meio Ambiente e a Natureza. O consumismo deve ser um dos temas principais - como já apresentava Roger Scruton em seu "Filosofia Verde". O consumo é interligado com toda a cadeia de problemáticas ambientais e a maior ferramenta de solução. 

Espera-se investimentos internacionais na região. Mais parcerias entre as Universidades amazônicas e as, principalmente, da Europa e Estados Unidos da América. O desenvolvimento tecnológico sustentável, de floresta em pé, é o futuro que a população do Brasil ainda não consegue ver. A Educação Ambiental pode contribuir para essa percepção. O Brasil pode ser um jogador importante no cenário global no que diz respeito as tecnologias sustentáveis. No entanto, acredito que a coisa começa no regional/local para o global, e não o inverso. Caso desconsiderem isso, esses eventos se tornam inúteis. Que a COP 30 não seja.

Que a COP 30 seja um ponta pé inicial para a devida atenção com o Museu Emilio Goeldi e com propostas como a do Plano Estadual da Bioeconomia do Pará (ver: https://www.semas.pa.gov.br/wp-content/uploads/2022/11/Plano-da-Bioeconomia-vers%C3%A3o-FINAL_01_nov.pdf).

Uma das ideias também poderia ser tornar Belém - Ananindeua deveria seguir a dianteira nisso - uma das cidades mais arborizadas do Brasil. Sem esquecer a questão da violência... Não é possível pensar sustentabilidade sem pensar junto os altos índices de violências. Escrevo isso como alguém que mora em Ananindeua. O que dá algum conhecimento prático de causa.

O terrorismo deu início ao século XXI - texto sobre o ano de 2023, escrito em 28 de dez. de 2022

 

28 dez. 2022


Neste mês de dezembro, um jovem de Ananindeua (Pará) foi alvo de busca e apreensão por suspeitas de planejar um ataque contra uma escola do município. Não é o primeiro caso em Ananindeua. Também não é o primeiro caso no Brasil. Infelizmente não seria nem mesmo o primeiro ataque a uma escola brasileira neste ano. Em novembro a notícia sobre ataques às escolas em Aracruz (Espírito Santo) chocou o país. Esses ataques contra escolas podem ser classificados, na maioria das vezes, como terrorismo. O conceito remonta da Revolução Francesa, mas práticas que poderiam ser tidas como tal existem há muito mais tempo - o uso do terror gerado pela violência com um objetivo político. No caso de Aracruz, há indícios que o adolescente dos ataques possuía crenças neonazistas. Mesmo que não tivesse atuado em grupo, sua atuação teria bases políticas.


Em cidades como Ananindeua e Aracruz o uso do terrorismo, planejado ou executado, aparece tal como em cidades como Oxford (Michigan), nos Estados Unidos (em 2021, quando um jovem de 15 anos matou estudantes e um professor em uma escola). Os criminosos de Aracruz e Oxford foram amplamente definidos pelo mesmo termo: terroristas.


Tristemente o terrorismo foi o que deu início ao presente século. Rotineiramente é definido um evento que representa a passagem de um século para outro, um “início”. Em certo texto uma historiadora comentava que o fim da epidemia de coronavírus seria o início do século XXI, que o mundo e as pessoas mudariam totalmente. Discordei quando li e discordo agora. O coronavírus não mudou os rumos do mundo e a mente das pessoas tão drasticamente quanto os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.


Obviamente o terrorismo no século XX era muito presente, em diversos grupos políticos – de religiosos a comunistas. Mas creio que nenhum modificou tanto as coisas quanto o ataque contra a maior potência mundial no início do século XXI. Além de impulsionar o desenvolvimento de novas tecnologias para auxílio de contraterrorismo, novas logísticas de prevenção surgiram. Na mente de muitas pessoas o terrorismo foi crescendo como um grande medo. Inclusive, em 2015, o terrorismo foi registrado como um dos maiores medos da população mundial (em pesquisa do American Pew Research Center). Sem falar na visão ocidental sobre o Oriente Médio, a qual deve os estereótipos ao ataque contra as torres gêmeas. O que afeta desde o cidadão comum até jogos e filmes.


O século XXI deve lutar contra aquilo que simbolizou seu início. O fortalecimento do modelo democrático de economia de mercado me parece ser a melhor vacina contra o terrorismo. A Democracia como vivemos enfatiza a aceitação das diferenças e a solução mais pacífica possível para solução de impasses. O diálogo e o voto, não os tiros e as bombas. Em pleno ano de 2022 não se pode ter no terrorismo uma mobilização política aceitável, seja qual for a causa.


Volto a citar este mês de dezembro. Não na cidade de Ananindeua, mas ainda no Pará. Ou melhor, alguém que saiu do Pará, de Santarém, e foi tentar realizar um ataque terrorista em Brasília. Trata-se de um militante pró Bolsonaro, atual Presidente da República. Ao que parece, o plano era detonar bombas e utilizar armas de fogo para criar possibilidades a um estado de sítio.


Resultando da não aceitação do voto popular, o militante chegou a ver no terrorismo a arma política para seus objetivos. Quando se fala em ataque com bomba é difícil não pensar no Atentado do Riocentro. Aquele em 1981 tentou armar um cenário para frear a reabertura política, incriminando os comunistas. O de 2022 tentou criar o ambiente para acabar com o modelo democrático, para se defender dos comunistas. O atual Presidente não se manifestou enfaticamente contra o ato terrorista. O que não é aceitável, principalmente quando consideramos o que já falou no passado, em sua entrevista ao programa “Câmara Aberta” de 1999.


O terrorismo é inaceitável e o silêncio de um chefe de Estado contra ele também é. Sendo contrário ao Socialismo/Comunismo, só consigo ver que o atual Presidente não é um nome contra os males manifestados na proposta do modelo Socialista. Para se combater Ditaduras não se utiliza outra Ditadura, mas sim o fortalecimento da Democracia. Vejo esse militante terrorista da mesma forma que os comunistas. Possuem a crença de que a Democracia é a verdadeira ditadura e que a violência terrorista é a arma para a verdadeira liberdade.


O terrorismo esteve no início deste século e no fim deste ano. Para o novo ano, espero que não aumente.

Na noite passada chorei pelo Brasil

Na noite passada chorei pelo Brasil. Por Ananindeua. Pela Democracia. Pelo Estado Democrático de Direito.


Não chorei de soluçar. O chorar não foi copiosamente. Foram algumas lágrimas. Mas expressaram um forte sentimento. Uma forte tristeza que sinto. Quando olho pela janela vejo desdém. Pela Democracia. Pelo Estado Democrático de Direito.


Aos olhos parece que a grande maioria dos brasileiros não se importa com a Democracia. Não vejo como novidade, pois historicamente é assim. A maioria nunca entendeu bem a importância do Estado Democrático de Direito. A importância de reprimir aqueles que querem o derrubar, mas sem que o Estado use de forças que não lhe cabem em Lei. Sem censuras não previstas. Sem violência não legalizada.


Lagrimei. Quando digo isso não é estratégia literária. É afirmativa real.


Para muitos historiadores que pesquisam História Antiga, Medieval e Moderna, é um sonho ter acesso a amplo conteúdo produzido por sujeitos do dia a dia. Observar como aqueles sujeitos pensavam. Mas para esses períodos as fontes que permitem isso são escassas, ou mesmo inexistentes. Hoje não.


Por isso chorei. Vendo como pensam as pessoas.

Teoria da conspiração? Desta vez acho que não...



Recentemente ouvi um senhor de idade conversando com um vizinho por aqui. Ele afirmava, com toda a convicção possível, que o 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos havia sido um plano de Bush. O Presidente, George W. Bush, teria “atacado seu povo” com o objetivo de criar a aceitação popular para uma invasão ao Afeganistão. Uma óbvia teoria da conspiração, a qual eu já conhecia há bastante tempo, mas apenas no ambiente da internet. Não esperava um senhor idoso replicando.

Mais recentemente li o jornalista Glenn Greenwald se manifestando a respeito de algo que muitos tratam como teoria da conspiração, mas não é. E confesso que esperava ver amplamente intelectuais e juristas replicando.

Refiro-me a alguns possíveis excessos de poder, e decisões dignas de preocupação, do Supremo Tribunal Federal. Greenwald chamava atenção para perigos de Alexandre de Moraes com poderes tão amplos. Ressalto que com algumas decisões de causar espanto. A prisão e condenação do Deputado bolsonarista, ignorando a imunidade parlamentar, decretada pelo STF em 2022 foi o ápice até o momento. Afinal, o Artigo da Constituição que pacificava a questão é bem claro.

Greenwald mencionou a posição que estavam tendo contra quem criticava os possíveis excessos no STF era semelhante a de Bush após o 11 de setembro: “Nosso país foi atacado! Qualquer um que questione os poderes que invocamos está do lado dos terroristas!”.

Concordo com Glen Greenwald, pois quem critica ações do STF não precisa estar ao lado de bolsonaristas e nem do PCO. Apenas preocupado com o Estado Democrático de Direito.

Leituras