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A maior arma da Revolução Francesa: Fake News

No processo revolucionário, o uso de mentiras para manipular a paixão popular contra a nobreza foi crucial.

Os líderes e simpatizantes ampliavam acusações de corrupção, de violências e criavam notícias falsas sobre membros da Monarquia.

O nome de Jacques Hébert é de grande destaque quando se fala em Fake News.

Quem assistiu ao filme "Napoleão" (2023), logo no início teve acesso a uma representação, muito bem realizada artisticamente, da execução da Rainha Maria Antonieta.

Porém, quase ninguém nas salas de cinema imaginava o fator fundamental que levou o povo a aceitar aquele momento histórico. 

Maria Antonieta aos sete anos. 1762. Jean-Étienne Liotard. Coleção: Schönbrunn Palace. Fonte: commons.wikimedia.org


Para fazer a massa popular ser conivente com a Rainha sendo guilhotinada, Hébert criou uma grande notícia falsa.

Inventou que a Rainha Antonieta mantinha relações sexuais com o próprio filho, o Delfim Luís Carlos, na época com apenas 8 anos de idade. Forjaram um documento, assinado por Luís Carlos quando estava em poder dos revoltosos, que atestava abusos cometidos pela mãe.

Essa mentira, que hoje seria tratada também como machismo, ocasionou aversão popular. Literal repulsa contra a Rainha, que já sofria com impopularidade.

Conscientemente o objetivo dos revolucionários era extrair da massa popular qualquer sentimento de compaixão contra Antonieta. Destruindo qualquer impedimento para sua humilhação e execução públicas.

Verdade ou não, o povo se importa mais com a Paixão e não com a Análise Racional.

Jornais e políticos sempre fizeram das mentiras uma arma política. Apenas recentemente começaram a usar o termo "Fake News", como se essa lógica tivesse sido criada ontem.

Não foi a internet que criou o uso de mentiras como ferramenta política e de violência. 

Na Revolução Francesa isso foi muito explícito.

E os mesmos líderes revolucionários, depois de usarem a mentira como arma, diziam ser defensores da "Religião da Razão".


SOBRE A FRASE DOS BRIOCHES

Fala-se que a Rainha teria exibido sua falta de conhecimento da realidade dos súditos, ou mesmo desprezo por suas mazelas, em uma pequena frase. 

Com o acentuado problema no abastecimento de pão, divulgaram que a Rainha teria sido enfática em dizer: "Que comam brioches". Um alimento muito mais caro e nobre. Além disso, o pão era alimento fundamental da maior parte da população francesa.

Sabidamente a frase nunca foi proferida por ela. 

Foi citada pela primeira vez em escritos de Jean-Jacques Rousseau, como sendo de uma "grande princesa", em uma época que Maria Antonieta ainda vivia na Áustria, com menos de 12 anos de idade.

Na realidade, no período revolucionário essa frase não foi atribuída a Rainha Maria Antonieta. O movimento de colocar na boca dela tais palavras só ocorreu em meados do século XIX.


Referências:

FRASER, Antonia. Maria Antonieta: a jornada. Tradução de Maria Alice Máximo. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

HUNT, Lynn Avery. The Family Romance of the French Revolution. Berkeley: University of California Press, 1992.

ISTOÉ - SENHOR. A Revolução Francesa - 1789-1989. Editora: Três, 162p., 1989.



Orientação de pesquisa em História

Aos poucos busco me afastar do ambiente acadêmico e educacional, por variados motivos sócio-filosóficos. Porém, o desejo em realizar pesquisa histórica ainda é enorme. Continuo como posso, apesar de não ter preocupação em publicar em coletâneas ou revistas acadêmicas. 

Desde a quinta série do Ensino Fundamental eu pretendia cursar Direito. No entanto, decidi no segundo ano do Ensino Médio entrar primeiro (quando fosse fazer o vestibular) em uma Graduação em História. 

A pretensão era desenvolver uma pesquisa histórica que conectasse o tempo presente com a discriminação histórica contra religiões de matrizes africanas (nunca fui da religião, mas uma profunda pesquisa que realizei, para um Seminário na disciplina de Sociologia, gerou-me grande interesse nessas religiões - que depois se ampliou para o desenvolvimento histórico e social de todas as religiões). O objetivo era desenvolver o TCC sobre esse tema. Já entrei tendo o TCC definido.

Entrei, em 2015, para iniciar turma em 2016 na Graduação em História. Os planos mudaram. Entrei em uma pesquisa PIBIC com um tema totalmente diferente. O tema era Educação Ambiental e Ensino de História. 

Existiam outros dois projetos de pesquisa no PIBIC, mas optei por me candidatar a esse por dois motivos:

1. Primeiro, porque no Ensino Médio eu tive muito contato com a ideia da Educação Ambiental e Interdisciplinaridade (por meio dos projetos do Professor de Física no Ensino Médio, e pelo de Estudos Amazônicos nas séries finais do Fundamental). Eu nem iria me inscrever, mas minha amiga - hoje namorada - insistiu. 

2. Segundo, porque pela proposta de trabalho o pesquisador teria muito contato com escolas públicas, diretores, professores, a observação do ambiente escolar e das aulas. Eu ainda tinha muito saudosismo do Ensino Médio (minha época preferida da vida, principalmente porque foi quando eu mais atuei em Teatro escolar) e porque queria pesquisar a estrutura do ambiente que anteriormente me formou.

Para minha sorte, uma das perguntas na entrevista de seleção para o PIBIC, realizada pelo Coordenador, foi: "O que você entende por Interdisciplinaridade?". 

Minhas experiências no Ensino Médio, e o conhecimento que eu já tinha do conceito, foram fundamentais para eu ser selecionado entre os concorrentes.

Com esse projeto, meu sistema do orientação alterou. A bússola levou para outro lado.

Entrei nele no segundo mês de Universidade. Desde aí me aprofundei muito na temática Ambiental, da Educação Ambiental, Educação, do Ensino de História, da História Ambiental, Formação de Professores, do Currículo, das normas nacionais para a Educação, Projeto Político Pedagógico, Gestão Escolar Democrática, Filosofia da Educação, etc.

Meu foco passou totalmente para a temática ambiental. Obviamente é possível relacionar a temática das religiões e a ambiental, mas não foi o caminho que segui. Desenvolvi uma Monografia de Conclusão sobre os resultados das várias observações e aplicações de questionários em escolas (pode ser encontrada na aba SOBRE). Educação Ambiental e Ensino de História.

Felizmente meu desejo por pesquisar diversas áreas continuou. Não foquei apenas em um tema da História, nem mesmo apenas na disciplina da História. Busquei sempre ampliar para leituras e reflexões de Filosofia, Economia, Sociologia, Antropologia, Neurociência, Etologia, Artes, e o que fosse possível.

Ao longo da Graduação desenvolvi uma forte defesa, e verdadeiro Amor, pela veracidade histórica. Pela pesquisa histórica preocupada em compreender e explicar as realidades históricas. Não com preocupação de usar a história como ferramenta política (seja lá para qual interesse for). O trecho de Renzo de Felici, que fica na coluna lateral deste blog (só visível na versão para computador), é uma grande inspiração que tenho.

Há alguns anos percebi que muitos, talvez a maioria, usam a história para suas paixões políticas e não para buscar compreender e explicar realidades ao longo do tempo. Eventos dos últimos anos observados nos ambientes acadêmicos, do local ao global, contribuíram para que eu, de fato, buscasse o distanciamento. Estou construindo.

Porém... Recentemente fui convidado para participar de um Seminário de Pesquisa em História. A proposta era realizar comentários sobre os projetos de pesquisa dos graduandos - que estão em fase de iniciar o TCC. 

Já tinha participado antes, também convidado - quando ainda possuía muita vontade pela vida acadêmica. Aceitei o convite quase de forma automática. Confesso que depois eu me arrependi, mas já tinha aceitado. A pessoa que realizou o convite pesou muito para eu não ter cancelado a participação.

Recebi os resumos de três trabalhos. Sempre tenho opinião e sugestões para pesquisas históricas, mas ultimamente busco não expressar - fugindo da institucionalização acadêmica. Esses foram exceções. 



A seguir eu deixo os slides que preparei para tentar contribuir com a pesquisa dos graduandos.

Montei os slides me baseando no Resumo de cada um, mas realizei meus comentários após a comunicação oral dos alunos. 

Após a apresentação deles, realizei alguns ajustes nas minhas sugestões, pois oralmente apresentaram diferenças comparado com os resumos. Os dois últimos, pelo resumo, seriam revisões bibliográficas, mas na apresentação os proponentes mencionaram que pretendem realizar entrevistas.

Omiti o nome dos alunos por questão de privacidade.

Yu-Gi-Oh! me levou ao Mestrado em História

Não. Meu tema de pesquisa não teve nada a ver com Yu-Gi-Oh! - o jogo de cartas de monstros que lutam. Porém, se não fosse esse jogo, talvez não tivesse encontrado o tema de pesquisa que me fez desejar cursar o Mestrado em História.

A realidade é que o tema me encontrou, e não eu que o encontrei. 

Foi uma espécie de epifania. 

Em certa noite, em casa, eu estava jogando Yu-Gi-Oh! Duels Links. Quando algo me atingiu.

Apesar de detestar o modelo de jogo rápido dele, e preferir um deck de cartas com 40 ou mais (em batalhas bem mais longas do que o modelo do Duel Links), eu me divertia um pouco com esse aplicativo.

Enquanto eu me divertia, fui atingido por uma dúvida histórica.

Curiosamente, não foi uma dúvida gerada por algum artigo acadêmico, uma aula na Universidade ou um livro famoso de historiografia.

Lá pelos idos de 2018, a carta "Lenhador, o Herói do Elemento", que usei para vencer um duelo, fez surgir no meu cérebro a seguinte pensamento: "Lenhadores... Isso me lembra de lendas europeias, como a da Chapeuzinho Vermelho. A figura do lenhador sempre ligada com a produção de lenha para se aquecer no inverno. Característica dos países frios". 


Carta "Elemental HERO Woodsman", no BR chamado de "Lenhador, o HERÓI do Elemento". Fonte: mypcards.com.

A seguir veio a dúvida: "Pera aí... mas será que era uma exclusividade da Europa? Será que existia o uso do termo lenhador para definir um ofício frequente em regiões como a Amazônia?".

Pensei, amparado em minhas leituras sobre História Ambiental e História da Alimentação, na possibilidade de existir na Amazônia do século XIX (período que eu estava mais interessado na época) alguma presença de trabalhadores que poderiam ser considerados "lenhadores" - pois era necessário lenha para, pelo menos, cozinhar. Mesmo se o termo não fosse usado.

Meu objetivo era apenas sanar a dúvida. Fechei o jogo e fui para o computador.

Apenas pretendia ler algum trabalho que tivesse escrito sobre isso. Ou mencionado esse tema.

Descobri que existia - e ainda existe - um vácuo na produção acadêmica de História sobre o tema da produção, comércio e consumo de lenha. Alguns trabalhos citam a região Sul e Sudeste, mas nada de concreto tinha sido produzido sobre a região amazônica.

A maioria dos trabalhos que abordam o tema não possuem ele como foco principal. Encontrei apenas um artigo que discutia o comércio de lenha em Minas Gerais, no final do XIX e início do XX. O próprio artigo enfatizava que era um tema quase ignorado na historiografia brasileira.

Quando percebi isso, fui em busca de documentos históricos do século XIX. Jornais, Relatórios de Província, Relatos de Viagem, Desenhos e gravuras da época.

Pretendia apenas encontrar algumas informações que acabassem com minha dúvida - já que ninguém tinha produzido um trabalho que permitisse isso. 

Imaginei que encontraria pouca coisa, que nem mesmo iria me deparar com o termo "lenhador" na Amazônia. Afinal, em uma região cheia de árvores e sem frio intenso, dificilmente existiria a necessidade de alguém para acumular grandes estoques de lenha e comercializar. Minha hipótese era de que a coleta de lenha, e gravetos, seria o suficiente.

Minha hipótese se provou equivocada. 

As fontes demonstraram uma forte presença de lenhadores, chamados dessa forma, na Amazônia do século XIX. Quanto mais eu encontrava fontes históricas, mais eu percebia que havia me deparado com um tema complexo, intrigante e nunca pesquisado. 

Primeiro pensei em escrever apenas um texto para o Blog do Grupo Ananins, que faço parte. Porém, ao ver a complexidade do tema, percebi que não ficaria satisfeito com um simples texto.

Até então eu não tinha planos de sair da Graduação e cursar o Mestrado.

Quando essa pesquisa me encontrou, a situação mudou.

Comecei a perceber que uma Dissertação de Mestrado seria a produção mais adequada para discorrer sobre meus achados históricos - de muita importância para a compreensão da região amazônica de tempos passados.

Aos poucos as fontes me mostravam que os lenhadores eram indígenas, negros e brancos pobres. Eu percebia que existia uma complexa relação entre trabalho compulsório, trabalho assalariado, convencimento de indígenas, conhecimentos e usos da floresta, ideias sobre propriedades privadas e públicas, e a produção e comércio de lenha na Amazônia.

Descobria, em contato com a documentação, que o ambiente amazônico do século XIX apresentava algumas cenas que antes pareciam ser possíveis apenas na Europa. O comércio de lenha, mesmo em uma região tida como berço de uma infinidade de árvores, era frequente para as cozinhas de cidades do Pará e Amazonas. 

Percebi que a partir da década de 1850, com a introdução da navegação a vapor, a necessidade por desmatamento ampliou significativamente. As embarcações a vapor precisavam de lenha para navegar. Para lenha ser produzida, precisavam de braços para cortar árvores.

As fontes revelaram que grandes estoques de lenha eram formados para alimentar a fornalha dos vapores. Isso, como descobri, alimentou, em alguns indivíduos do século XIX, o temor de "matas calvas e estragadas" - que é o termo de um documento histórico, que compõe o título de minha Dissertação, defendida em 2024.

Na Amazônia do século XIX, os "lenhadores" não apenas existiam e eram chamados dessa forma, mas também estavam inseridos em uma complexa interação social que envolvia rios, ruas, humanos, outros animais e diferentes espécies de árvores.

Foi apenas por descobrir toda essa complexidade, ainda não pesquisada por outros historiadores, que decidi entrar de fato no Mestrado em História (em 2021, quando concluí a Graduação, para a turma de 2022 no PPHIST-UFPA).

Toda a trilha para meu encontro com o tema da produção, comércio e consumo de lenha, surgiu no momento em que a carta Lenhador, o HERÓI do Elemento, invocou em mim a dúvida histórica. 

Dúvida, criada pelo jogo Yu-Gi-Oh!, que me levou ao Mestrado em História.

Nazismo e arianismo: um tema mal ensinado

Hitler não ter nascido na Alemanha não era, na visão nazista, um demérito.

No senso comum, que chega a comentar o tema, e mesmo em aulas de História (nas que eu tive no Ensino Básico, por exemplo) o fato de Adolf Hitler ter nascido na Áustria - e não Alemanha - é apresentado como uma contradição.

Afinal, o líder nazista defendia a teoria de que os alemães eram da "raça" dos "arianos", mas não era nascido na Alemanha.

Acontece que isso é uma incompreensão da realidade histórica a respeito do pensamento racial do Nacional Socialismo Alemão.

A crença metafísica dos nazistas (pois era uma interpretação que unia uma lógica material com uma lógica transcendental - fortemente crítica ao materialismo Marxista e ao materialismo individualista do Liberalismo) compreendia a "raça" alemã como uma descendência direta, e mais "pura", dos "arianos".

O termo deriva de "arya", palavra com raiz indo-iraniana, e aparecia em textos hinduístas (os famosos "Vedas") se referindo a um povo "nobre" e "honrado". Durante o século XIX, estudos de linguística comparada perceberam semelhanças muito significativas em idiomas antigos como o Sânscrito, Persa antigo, Celta, Germânico, Grego e Latim. Foram considerados como idiomas indo-europeus.

Os falantes originais das línguas indo-europeias orientais foram denominados no campo da Linguística de "arianos", especialmente os que originaram o Sânscrito e Persa.

Entre alguns, os arianos foram reconhecidos não apenas como falantes de um idioma comum, mas originados de uma "raça" comum.

Os membros nazistas tiveram contato com leituras de produções da Linguística, Arqueologia e Antropologia que sugeriam a existência de um povo indo-europeu dominante. Esse povo teria conquistado a maior parte do globo em algum momento obscuro do passado.

Entre os pensadores que influenciaram fortemente o pensamento dos nazistas estão Arthur de Gobineau (que publicou um livro sobre raças humanas em 1853, colocando os arianos como superiores - Heinrich Himmler menciona esse como um dos pilares do pensamento racial nazista), e do genro de Richard Wagner, Houston Stewart Chamberlain (que publicou, em 1899, uma extensa obra defendendo que a história da Europa era uma luta entre duas raças: raça germânica, o ápice da cultura, e a raça judaica, o declínio de qualquer grupo social, antinatural e parasita).

Início do livro de Chamberlain, citando Arianos. 1899. Fonte: archive.org.


Gobineau era pessimista em sua visão racial. Acreditava ser impossível resgatar a "pureza" dos arianos. Diferente de Chamberlain. Esse chegou a encontrar pessoalmente com Hitler em 1923, manifestou que via nele a esperança da Alemanha e um homem enviado por ordens divinas (uma leitura de "salvador" sobrenatural que depois aumentaria).

Os nazistas seguiam a mesma lógica otimista para suas ideias raciais. Acreditavam ser possível recuperar a "raça ariana".

Membros do nazismo consumiram essas produções, mas também pesquisas Arqueológicas.

Ainda no século XIX, arqueólogos buscavam vestígios dos arianos. Conseguiram encontrar, em escavações na Europa,  Índia e Ásia Central, um frequente símbolo: a suástica. Existia a interpretação que os arianos teriam dominado essa região. Ainda emergiu a hipótese de que teriam ampliado sua ocupação por outras regiões em busca de expansão.

Nazistas acolheram e reformularam - com base em suas próprias leituras de mundo - ideias que uniam os arianos, o meio ambiente, a história e uma expectativa de futuro. Concordaram com interpretações que viam o Norte da Europa como berço dos "verdadeiros arianos". Os germânicos seriam então os arianos mais "puros".

Quando os nazistas falavam em Alemanha, não se referiam àquela divisão política existente no século XIX e início do XX. Eles se referiam a uma sociedade que pensavam ter existido em um passado distante. Uma sociedade construída com os valores "superiores" dos tais arianos/germânicos. Mas não apenas isso. Não pretendiam recuperar um passado imaginado e o conservar. Seu interesse era "salvar" a raça alemã e construir uma Alemanha melhor e maior do que a do passado e do presente. A visão do Nacional Socialismo Alemão era a de realizar uma revolução cultural e racial. No centro dessa revolução estava o embate entre arianos (supostamente superiores, com melhor cultura e mais fortes) contra os judeus (supostamente inferiores, parasitas do meio ambiente alemão, destruidores da cultura alemã - seriam os criadores tanto do materialismo marxista quanto do individualismo capitalista).

Por raça alemã eles não compreendiam apenas quem nascia na divisão política que naquele século era chamada de Alemanha. Eles compreendiam como parte da raça alemã todos aqueles que compartilhassem a "pureza" do sangue ariano/germânico.

Hitler não ter nascido na Alemanha e sim na Áustria, mas ter o "sangue ariano", não era algo que contaria negativamente. Isso, na visão racial nazista, era um ampliador de suas crenças. Afinal, era um exemplo de como a Alemanha deveria se ampliar para todas as regiões em que os arianos estivessem.

Isso simbolizava a legitimidade para a incorporação da Áustria, e de outras regiões, pela Alemanha que os nazistas desejavam construir.

A simbologia não era exclusiva de Adolf Hitler. O seu "vice" no Partido Nazista, o pouquíssimo comentado Rudolf Hess, não era nascido na Alemanha. Também não nasceu na Áustria. Na verdade, em nenhum país da Europa. Hess nasceu, de pais "germânicos", no Egito. Para ser mais específico, na cidade de Alexandria.

Assim como Hitler, Hess também era considerado como membro do volkisch alemão. Esse volkish era um sentimento idealizado que supostamente unia, de forma orgânica, a Alemanha material (solo - sinônimo de meio ambiente - e sangue) com o povo alemão/germânico. Também unia os germânicos entre si mesmos. 

Era então uma conexão dos alemães entre si, em uma comunidade, e com a própria Natureza da Alemanha. Nessa lógica, os nazistas buscavam recuperar aquilo que consideravam ser o verdadeiro Socialismo. Ele seria de origem germânica, nacional e transcendental. Diferindo drasticamente do Socialismo Marxista, que eles acreditavam ser uma deturpação judaica. 

Nazistas, nessa lógica de Socialismo Alemão, inclusive mantinham a ideia de que o "bem comum" (do volkisch) deveria estar acima da vontade individual (que seria parte do liberalismo-capitalismo, também compreendido como deturpação dos judeus).

No geral, em aulas de História, do Ensino Básico e mesmo Superior, as ideias raciais do Nazismo são simplificadas. Dando margem para compreensões equivocadas sobre como funcionava o pensamento racista dos nazistas.

Penso que é importante, para nós profissionais da área da História e qualquer um que tente falar sobre a história, compreender a complexidade da realidade. Do presente e do passado.

Referências:

CHAMBERLAIN, H. S. The Foundations of the Nineteenth Century. London: Swan Sonnenschein & Co., 1899.

EVANS, Richard J. A chegada do Terceiro Reich. Tradução de Renato Marques. São Paulo: Planeta do Brasil, 2010.

GOBINEAU, Arthur. An Essay on the Inequality of the Human Races. New York: Burt Franklin, 1853.

GOODRICK-CLARKE, Nicholas. The Occult Roots of Nazism: The Ariosophists of Austria and Germany, 1890–1935. London: Aquarian Press, 1985.

STAUDENMAIER, Peter. Between Occultism and Nazism: Anthroposophy and the Politics of Race in the Fascist Era. Leiden. Boston: Brill, 2014.

UEKöTTER, F. The Green and the Brown: A History of Conservation in Nazi Germany. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.

VITTE, Antonio Carlos. A preservação da paisagem e a conservação da natureza no III Reich. Confins: Revista Franco-Brasileira de Geografia, [Paris], n. 32, p. 1-14, 2017.

WEIKART, Richard. From Darwin to Hitler: Evolutionary Ethics, Eugenics and Racism in Germany. New York: Palgrave Macmillan, 2004.

Não pousaram na Lua apenas uma vez

Na época de Mestrado, cursei uma disciplina fora do meu Programa de Pós-Graduação. Deixei o ambiente da História para outro Departamento, mas ainda em Humanidades. Entre as discussões teóricas, em um Componente Curricular que desde o título pretendia discutir "Teoria" e "Sociedade", o tema que surgiu foi a Missão dos Estados Unidos da América na Lua.

Um dos colegas, da área da Geografia, manifestou sua descrença no fato de que "o homem pisou na Lua". Ele fazia referência à Missão Apollo 11 (Julho de 1969). 

Eu tentei explicar sobre algumas coisas que confirmam o pouso da Apollo 11 em superfície lunar. Porém, mesmo assim ele manteve a descrença. O contexto da Guerra Fria o fazia ter certeza, sem margem para dúvidas, que os EUA forjaram tudo de forma cinematográfica. Entre seus argumentos, o colega utilizou uma clássica pergunta sobre o assunto: "Se foram lá mesmo, por que não voltaram mais?".

Essa pergunta, que é usada como uma retórica de convencimento, parte de um senso comum equivocado. Senso comum construído pela falta de divulgação de informações muito importantes sobre as explorações lunares. A principal delas é: a Apollo 11 não foi a única que teve sucesso em pousar na Lua.

Sim. Muitos não sabem disso, mas depois da Apollo 11 outras missões foram igualmente bem sucedidas. Cinco. Totalizando Seis missões tripuladas.

Depois da Apollo 11, as missões Apollo 12, Apollo 14, Apollo 15, Apollo 16 e Apollo 17 também levaram humanos e suas tecnologias até o nosso Satélite.

Alan L. Bean em seus primeiros passos na Lua. Missão Apollo 12, Novembro de 1969. Fonte: www.nasa.gov

Na imagem anterior, é possível ver um dos astronautas que fizeram parte da Missão Apollo 12. Alan Bean (piloto do módulo lunar), juntamente com Charles Conrad (comandante) e Richard F. Gordon (piloto do módulo de comando) formaram a tripulação na cápsula da Apollo 12, lançada pelo foguete Saturno V. O foguete decolou às 11h22 de 14 de novembro de 1969.

Durante o lançamento, o Saturno V foi atingido por um raio que afetou os comandos na cápsula. Porém, com a atuação do centro de controle, em Houston (especialmente do engenheiro John W. Aron), e do piloto Alan Bean, em poucos instantes tudo foi estabilizado.

No dia 19 de novembro, cinco dias depois do lançamento, a tripulação enfim pousou na superfície lunar. Na verdade, parte da tripulação. O piloto Gordon continuou em órbita do astro, no módulo de comando.

Assim como nas outras explorações, a equipe registrou imagens e coletou amostras que foram de fundamental importância para os estudos científicos sobre a Lua.

A Apollo 12 foi uma das missões que, além da pioneira Apollo 11, tiveram sucesso em aterrissar na grande rocha que enfeita o céu noturno do planeta Terra.

Os humanos continuam avançando em suas explorações. 

Em breve veremos humanos pousando na Lua novamente. Mas não apenas isso. Também poderemos vislumbrar imagens de bases instaladas nesse satélite natural.

O Projeto Artemis, da Nasa, é o mais avançado - que sabemos - nesse planejamento. Entre os objetivos estão a criação de uma base sustentável para humanos na Lua. A China também já manifestou esse interesse para a próxima década.

Será que os descrentes no sucesso da Apollo 11 também irão duvidar das futuras bases lunares?

Mineração de asteroides

Imagine uma estrutura enorme, algo entre um robô e uma escavadeira guiada, extraindo da superfície e coletando minérios preciosos. Mas o maquinário avançado não está ativo no planeta Terra, como é de se pensar para uma tecnologia dessas. Ele está à deriva. Cravado em um gigantesco asteroide que vaga pela escuridão do universo.

Asteroide no espaço. Gerado por IA.

Diferente do Mars Rover, que já anda pelo solo de Marte, essa estrutura de escavação ainda não está realizando seu trabalho no vasto vazio espacial. Talvez em um futuro próximo isso seja uma realidade frequente. Quem sabe canais na internet irão transmitir ao vivo esse tipo de procedimento.

Depende de alguns grandes avanços de equipamentos e de diminuição de custos. Porém, a mineração fora do planeta já é uma discussão séria nos campos de Tecnologia, Economia e até mesmo Geopolítica.

Recentemente, um asteroide em especial ganhou as manchetes: 16 Psyche.

Viajando pelo Cinturão Principal de asteroides, entre Marte e Júpiter, esse colosso - de mais de 200 quilômetros de diâmetro - é definido como asteroide tipo M. Isso significa que sua composição é predominante de material metálico.

A mídia em geral o divulgou quase como uma bola de ouro, mas a quantidade desse mineral ainda é especulação. Afinal, ele em sua maioria é composto de ferro e níquel.

Mas a possibilidade de encontrar nele, ou em outros, grandes quantidades de Ouro, Cobalto, Platina e outros metais, é muito real.

Com o conhecimento de que as reservas terrestres de minérios são limitadas, é importante imaginar e construir possibilidades extras. Afinal, os confortos do mundo atual, desde o funcionamento deste notebook que uso até os mais avançados equipamentos médicos, dependem de minérios escassos.

Desde as missões na Lua das décadas de 60 e 70, os Estados Unidos da América inspeciona as possibilidades de exploração de diferentes astros - entre luas, planetas e asteroides. A Nasa olha atualmente com grande interesse para asteroides como o 16 Psyche.

Em período mais recente, a China também demonstrou muito interesse em exploração espacial, já estudando as possibilidades de obtenção de minérios em asteroides.

Sou grande entusiasta da exploração de asteroides. Afinal, isso pode significar diminuir danos aos humanos e outras espécies animais. Com o avançar desse tipo de prática, também nos seria possível diminuir danos ambientais diversos, especialmente contra montanhas. Manteríamos nossa internet, computadores, tecnologias médicas, sem abrir mão de uma paisagem de montanha não escavada.

Estaremos ainda vivos quando uma máquina, tal como aquela imaginada no início deste texto, estiver explorando ouro de enormes asteroides?


Referências:

CORRÊA, Fernanda das Graças. FUSÃO NUCLEAR PARA EXPLORAÇÃO ESPACIAL: do lançamento e mineração à geração de energia e viagens interestelares. Revista da Escola Superior de Guerra, v. 38, n. 84, p. 105-129, 2023.

STEIN MAURO, Letícia. Panorama dos estudos atuais sobre a Mineração Espacial. TCC, Instituto Federal do Espírito Santo, Campus Cachoeiro de Itapemirim, Engenharia de Minas, 2021.

Meu novo desejo impossível: ter conhecido as obras de Sabin Balasa desde sempre

 


Comparado com a maioria das pessoas, nos dias atuais não tenho muitos desejos. Felizmente. Os que tenho não são tão complicados de se realizar em médio prazo. Porém, ganhei um novo desejo impossível. Quando uso o termo não é como força de expressão, artifício retórico ou hipérbole para decoração de uma frase. É literalmente impossível. Há poucos dias conheci as obras visuais e audiovisuais do artista Sabin Bălașa (essa grafia original leva acentos que não sei nem como usar pelo notebook). E desejei ter conhecido esse artista desde sempre. Algo que é naturalmente e sobrenaturalmente impossível de se realizar.

O desejo surgiu desde o primeiro contato com as obras de Balasa. Aos meus olhos expressam uma mistura de nonsense metafísico-cósmico. Uma beleza inquietante.

Sabin Balasa. Fonte: www.sabinbalasa.com.

Balasa foi um artista romeno que viveu entre 1932 e 2008. Segundo o Wikipedia, ele foi filho de um padre (não tem informações sobre isso, mas é possível que tenha sido um homem já casado que se tornou padre da Igreja Ortodoxa - o que é permitido, mas não é permitido casar depois de ser ordenado) e de uma professora. Tristemente o site oficial de Balasa só informa sobre suas formações na arte, prêmios, etc. Não fornece detalhes de vida para além disso. Pelo contato que tive com sua obra, acredito que o site oficial faz a melhor definição possível de sua Arte:

"Ele criou um universo único de figuras arquetípicas e temas metafísicos, que expressou em suas pinturas por meio de uma estrutura poética e filosófica imersa em uma atmosfera romântica e cósmica. Suas obras estão presentes em diversas coleções públicas, incluindo o Museu Nacional de Arte da Romênia, e em coleções particulares em todo o mundo".

O site também apresenta uma fala do próprio Sabin Balasa sobre sua Arte:

"Minha arte é um sonho eterno, não só meu, mas também um sonho da humanidade. Sem a participação da humanidade, a arte permaneceria apenas um sonho oculto. Estou convencido de que trago mais beleza e razão ao mundo, numa época em que as pessoas, cansadas de palavras vazias, precisam de apoio espiritual. A arte é uma mensagem individual endereçada à humanidade. Eu habito no abismo e pinto o que vejo com os olhos da minha mente; para mim a arte é uma visão, um ato de generosidade, um ato supremo de liberdade individual, um grande poder de amar. Na vida, como na arte, segui meu próprio caminho; perpetuei meu sonho, ajudando outros a descobrirem os seus. Vivo para criar, sempre sabendo ser e permanecer vitorioso".

Encontrei essa outra frase, atribuída a ele pelo trabalho de Daniel Banica, que achei muito interessante: "ARTE - significa desenvolvimento da realidade através de uma linguagem profunda [...] Arte está nas mãos de todos, mas nasce de apenas um dos pais, pois seu criador é solitário". Creio que traduzi bem o trecho. 

Queria ter conhecido as obras de Balasa desde que nasci.

Aquele que também quiser conhecer, que procure.


Referências:

Daniel Banica. Creativity and creation in the socio-military medium. 2013. Disponível em: https://ns.afahc.ro/ro/afases/2013/socio/BANICA.pdf 
Sabin Balasa. Site Oficial. Disponível em: www.sabinbalasa.com.
Sabin Balasa. Wikipedia. Disponível em: https://ro.wikipedia.org/wiki/Sabin_B%C4%83la%C8%99a


Brechas de Incoerência

 


Um Estado Nacional é um jogo humano com regras que podem ser coerentes ou incoerentes. E brechas de incoerência colocam toda a coerência em risco.


Em 1964, para falar um pouco de história, o Supremo Tribunal Federal da época foi conivente com uma ação incoerente contra as regras do jogo. Uma incoerência que leva o nome técnico de Golpe. Pouco tempo depois de apoiar o Golpe, o próprio STF sofreu com a incoerência que aceitou legitimar. Porque quando abrimos brechas de incoerência, as regras coerentes passam a não fazer mais sentido com a nova lógica instaurada. O que antes era incoerência se torna a nova regra do jogo.


Dentro do jogo humano chamado Estado Nacional, existe a definição do que é Liberdade, instituída por regras que chamamos de Leis. 


Com essas Leis definimos aquilo que é Liberdade. Essa Liberdade é construída e mantida por humanos, com regras humanas (sou repetitivo de propósito neste texto). O indivíduo pode optar por se sujeitar ou não aquilo que lhe foi imposto como Liberdade. Ao não se sujeitar pode sofrer com as punições estipuladas pelas Leis.


Porém, como essa Liberdade é estipulada pelo jogo do Estado Nacional, das Leis e das interpretações a respeito das Leis, o que hoje está incluso entre as Liberdades amanhã pode não estar. A Liberdade que hoje existe para falar que um Governo é ruim amanhã pode não existir. Tal como em 64, ou mais efetivamente em 1968. Existia temor real de se manifestar publicamente contra o governo e ser pego pelas novas regras, que antes eram incoerentes.


Existem coerências que devem ser necessariamente mantidas. Para evitar brechas que possibilitem limitações contra a Liberdade e que sejam mais prejudiciais do que benéficas para uma vida menos ruim.


A vida natural e social em si é danosa. Inventamos casas para nos proteger da Natureza. Criamos regras jurídicas para nos defender uns dos outros e do próprio Estado que cria e mantém as Leis. A Liberdade, criada e mantida pelo Estado Nacional, pode ser mais ou menos restrita. Algumas brechas de incoerências abrem caminhos para restrições maiores e que fariam a vida geral pior. Afinal, constrói uma lógica institucional que define como coerente aquilo que antes era incoerente.


Eu realmente acredito que a decisão do sistema jurídico, de um Estado Nacional, que condena um comediante a mais de 8 anos por fazer piadas em shows, não é coerente com as regras do jogo atual e muito danoso para a garantia de uma vida social menos pior. Esse tipo de decisão é infinitamente mais perigosa que a soma das piadas pesadas desse comediante. 


Com um experimento mental, a única forma que eu vejo ser coerente uma condenação do tipo (ou até mais grave) contra um comediante, é se ele faz certos tipos de piadas em shows ao mesmo tempo que participa de redes, células ou movimentos, com potencial real de gerar danos graves e objetivos contra terceiros. Porque nesse caso, seria um indivíduo mobilizando politicamente a moral de apoiadores de um movimento extremista/fundamentalista.


Uma decisão como essa abre brechas para grandes incoerências em toda a estrutura lógica.


Piadas já podem levar um indivíduo a ser condenado à prisão. Será que em breve vão colocar na cadeia empresas e produtores de conteúdo que contam crimes como entretenimento para ouvir enquanto almoça?


O pior de tudo é que muitos dos que são contra um comediante receber uma condenação de mais de 8 anos, são os mesmos que aplaudem ataques como o contra o Charlie Hebdo ou Porta dos Fundos. Ou seja, abrem-se brechas por todas as paredes.


Creio que este seja meu último texto sobre esse assunto.

GIF de Anime

 

Criado pela equipe do cientista da computação Steve Wilhite, o Graphics Interchange Format dominou a internet em pouco tempo e ainda hoje tem muito destaque. Talvez o nome inteiro não seja tão conhecido, mas ao falar de GIF (com a pronúncia de "guif" ou "jif") facilmente se entende do que se trata. Em alguns poucos anos o formato permitiu imagens animadas em loop infinito.

Um arquivo que não é vídeo, mas imagem, podendo ser compartilhado como imagem em movimento. Prato cheio para entretenimento e memes.

Na época em que todos os vídeos eram em 3gp, os GIFs de anime se espalhavam pela internet. Eu tinha os meus preferidos. Os tempos voam. Apesar de GIFs continuarem, nada é igual no passado recente. Afinal, a infância se foi.





Sobre a condenação de Léo Lins

Um exagero. Mas apenas isso não exprime o tamanho do problema. É compreensível muita gente revoltada com piadas que o comediante realizou, mas isso não deveria ser motivo para apoiar uma penalização extremamente drástica e exagerada contra ele. Não é apenas alguém dizendo "Que feio, Léo Lins. Não deveria fazer isso". É o sistema jurídico de um Estado Nacional utilizando de sua jurisprudência para condenar um humorista a mais de 8 anos de cadeia, além de multa altíssima. Suas piadas evidentemente não são incentivos à violência, discriminação ou atitudes desse gênero. São piadas. Seria diferente se Léo Lins fosse um membro de uma célula neonazi e estivesse fazendo piadas para aumentar a moral de seus companheiros de movimento. Nessa situação até eu concordaria que a pena de 8 anos é leve. Pediria a Prisão Perpétua. Porém, não é o caso. Muitas piadas de Léo Lins são pesadas demais para o meu gosto pessoal. Algumas eu acredito que poderiam sim gerar processos. Mas processos que resultassem em pagamento de indenização e não em uma sentença de 8 anos. "Mas ele nem vai ser preso", alguns dizem. Não importa. A partir do momento que já existe objetivamente uma condenação de mais de 8 anos para um humorista, o Estado Nacional já criou um enorme problema em sua coerência. Essa jurisprudência me parece exagerada e perigosa. Infinitamente mais perigosa do que a soma das piadas pesadas de Léo Lins.  

COP 30 Nasceu morta


Com o atual cenário mundial de guerra, temor de guerra na Europa e Oriente, conflito econômico intenso entre EUA e China, e com Donald Trump sendo Presidente dos EUA, a COP 30 infelizmente nasceu morta.

O ambiente internacional não é propício para uma COP com resultados efetivos para planejar e investir (os países ricos) grandes montantes para a questão ambiental. Quando sua casa está em chamas você não senta e planeja como diminuir queimadas na Amazônia, você apaga o fogo da sua casa. Depois pensa no dinheiro para a energia elétrica do fim do mês, até porque mortos não precisam de energia elétrica, ou de Meio Ambiente equilibrado. O atual movimento no globo é dos EUA tentando não perder espaço para China, e grande parte da Europa temendo uma expansão da Rússia. Fora as últimas notícias sobre a Índia e Paquistão. 

Como discutir seriamente o investimento (especificamente o Brasil conseguir ganhar investimento de países com capacidade para isso) e políticas contra problemas ambientais sem saber se as sociedades como conhecemos existirão no ano que vem? Exagero, em certa medida, esse "fim" das sociedades. Porém, as possíveis mudanças drásticas não são exagero. Quem da Europa vai investir o suficiente tendo em vista que precisam investir muito nos próprios exércitos? Com Trump fora da Mesa de negociação, ainda existe algum sentido na COP 30? China vai estar disposta a assumir o papel dos EUA? Rússia?

Para além disso, creio que antes de discussões internacionais, planejamento local, regional e nacional é indispesnável. Sem ele o que o Brasil quer da COP 30? Para onde a Amazônia, para falar apenas de uma região do Brasil, quer caminhar? O governador perguntou isso para a população? Ao mesmo tempo que o Governo Federal apoiou uma COP 30 no Brasil, é altamente defensor da exploração de petróleo na Foz do Amazonas. 

É totalmente compreensível o interesse em explorar petróleo. É justo quando se planeja mais postos de trabalho, tecnologia (inclusive investimento em novas), comércio internacional, arrecadação, etc. Mas inegavelmente é contraditório com a COP 30. É nítido que depois da COP 30 o Governo Federal e Estaduais estarão empenhados em realizar a exploração desse petróleo. Compreensível. Caso a população local e regional deseje um planejamento de desenvolvimento regional e nacional dentro da economia do petróleo e tudo que está ligado com ele, bônus e danos, até eu apoio essa exploração. Mas alguém perguntou o que a população quer?

O Governo Estadual do Pará e Municipal de Belém estão abertamente tratando a COP 30 como a Copa que não foi. A Copa de 2014 que Belém perdeu para Manaus, que sediou os jogos. Pretende realizar melhorias estruturais (muito bem vindas) que poderiam ter sido feitas com os investimentos para a Copa. Falam, especialmente o Prefeito, na COP como um grande momento para a economia local. Certo... Mas e o tema da COP, como fica? Soluções sustentáveis, planejamento para conseguir investimento em pesquisa científica, tecnologia, parcerias internacionais, etc. Belém sabe o que quer da COP 30? E o Pará? E o Brasil?

Sei que em um cenário de caos internacional, como o atual, é possível pensar e investir em energias renováveis (como a União Europeia pesquisando coleta de energia solar no espaço, até pelo problema com a dependência de fontes russas de energia - China seguindo um caminho semelhante com essa tecnologia - enquanto Trump quer voltar ao carvão sem planos de mudar isso). Porém, os países estão dispostos a compartilhar investimento e conhecimento com o Brasil? O Brasil quer isso na COP? O Pará quer algo além de movimentar a economia de Belém e regiões nesse período da COP 30?

A COP 30 já nasceu morta quando em plano local e regional não existe nenhum planejamento de desenvolvimento sustentável que pretendem impulsionar com essa Conferência. E não existe, ou não parece existir, discussão a respeito dos objetivos locais/regionais/nacional com o evento. O atestado foi confirmado com o cenário internacional nada propício para eventos internacionais efetivos para sustentabilidade. COP 30 acaba, falando sobre como devemos usar energias renováveis, e no dia seguinte o Governo está fazendo o projeto de exploração de petróleo na Foz do Amazonas.

Talvez fosse mais efetivo um evento de âmbito nacional. Menos custoso e mais eficaz para planejar e executar. É possível levar a COP 30 a sério regionalmente quando a população local migra para áreas distantes em busca de menos violência e algum emprego? Não seria melhor pensar primeiro em âmbito local, regional e nacional antes de buscar investimentos internacionais? Quem sabe ainda dê tempo para a COP 31. 

Um dos resultados atuais da COP 30 em Belém é a inflação.

O interesse pela Arte e Filosofia daqueles que não possuem fama

 


Algumas vezes fico refletindo sobre o meu interesse pela Arte e pela Filosofia daqueles que não são conhecidos por um grande número de pessoas ou pela maioria das pesssoas. Que não possuem a chamada "fama".

Tenho muito apreço em admirar uma poesia, uma pintura, um desenho, e o pensamento de pessoas que não são conhecidas. Acredito que isso parte de meu interesse pela expressão artística e filosófica do indivíduo que faz o que faz por conta de não conseguir não fazer. Os artistas e pensadores que se expressam por anos e possuem 7, 10, 12 visualizações muito provavelmente não fazem o que fazem por querer algo, mas apenas porque precisam se expressar.

Sou admirador da Arte que surge como expressão do Ser do indivíduo. Aquela Arte que existe porque o seu criador se angustiaria caso não criasse. O mesmo para a Filosofia. Reconhecendo Filosofia como uma forma de observar e compreender o mundo. Tomo a noção de Julio Cabrera de que não existe um povo sem uma Filosofia. Talvez esteja modificando o pensamento de Cabrera, mas faço isso para expressar o meu próprio. Creio que todos os indivíduos, com um funcionamento minimamente suficiente dos processos cerebrais, possuem uma Filosofia, seguindo a ideia de Filosofia que expressei anteriormente. Até os Sofistas são Filósofos. Até os que dizem não ter Filosofia. A Filosofia me parece mais uma realidade ontológica da Natureza humana. Diferente da Política, que pode ser uma opção. Mas não quero agora explicar o que compreendo a partir do conceito de Política.

Volto ao tema do meu apreço pelos que não possuem fama. Saber o que pensa um indivíduo que postou suas ideias em um blog com 2 acessos apenas me é muito valioso. Ou alguém que expressou em um vídeo aquilo que pensa sobre sua própria existência ou sobre a existência de tudo que há. Ler a poesia dos poetas com dez acessos também me agrada. Mas já aprendi a contemplar a obra sem ir em busca de conhecer o artista. Refiro-me a conhecer pessoalmente, conversar, etc. Prefiro admirar a Arte e ignorar a realidade que é o artista em Si mesmo. É mais fácil contemplar positivamente o Ser quando ele É de uma certa distância. Não distância em metros, mas em conhecimentos.

Admiro a Arte de Tiziano e daqueles que nunca verei os desenhos.

Valorizo a Filosofia de Cabrera e dos que pensam igual e não são lidos, ou nem escrevem.

Lembro que ontologicamente temos todos o mesmo valor, ou não valor. 



CRÍTICA - Espetáculo "Gato por Lebre" (2024)


Ambientada em uma pensão localizada em uma região isolada na Inglaterra, a Peça "Gato por Lebre" (não confundir com a comédia "Gato por Lebre", título de Jandira Martini na sua montagem da Peça "Chat en poche", de  George Feydeau), do Dramaturgo e Diretor Saulo Sisnando , mistura comédia, mistério e drama. Com cenário e figurinos perfeitos, a obra foi encenada pelo grupo "Teatro de Apartamento" em 14 de março de 2024 no Theatro da Paz. 

O grupo possui potência para ganhar o Brasil, sem sombra de dúvidas. Com atuações quase todas impecáveis e um texto de grande qualidade, foram aplaudidos com grande entusiasmo do público - incluindo deste que aqui escreve. 

Gato por Lebre é um texto que se inspira no gênero das histórias de detetives, em especial e de forma explícita nos de Agatha Christie. Em sua sinopse apresenta:

"Sete hóspedes singulares decidem passar o fim de semana em uma pensão isolada, acessada apenas duas vezes ao dia, por um estreito passadiço de terra. À noite, quando todos já estão recolhidos em seus aposentos, um tiro é ouvido e alguém é assassinado. Mas quem? A artista plástica viciada em homens? O repórter com sede por notícias? A criada religiosa e cruel? A dona de casa com problemas psiquiátricos? O coronel aposentado? Todos podem ser a vítima… e todos têm motivos para matar! Cabe, então, ao mais famoso detetive do mundo desvendar esse mistério."

A entrega para a obra e a qualidade artística dos atores é perceptível. O talento da Arte do Teatro está presente neles, em todos os momentos. Dos dramáticos aos engraçados. Mencionar apenas um ou outro nome de destaque seria de grande injustiça. 

Ressalto que a utilização do belo cenário é bem trabalhada no Roteiro e Direção. Em um texto que, entre o mistério e o desenrolar da investigação, apresenta uma crítica social muito bem conectada com todo o tom da trama. 

Ao fim do Espetáculo, depois de aplaudir entusiasmado como todo o público, saí amplamente satisfeito. Tentando juntar algumas peças, lembrando aquelas que já tinha coletado, procurando ainda algumas que podiam ter me passado despercebidas. Uma experiência completa de leitura dos livros de Agatha Christie. Lembrei-me em especial de "Assassinato no Expresso do Oriente". Que ótimo esse estilo de Teatro, com histórias de detetives, encenado aqui pela Amazônia, com roteiros originais brasileiros. O último que lembro - talvez tenham ocorrido outros - foi a Peça "O Assassinato de Machado de Assis", roteiro do artista paraense Carlos Correia Santos.

No mais, é de se agradecer ao Dramaturgo e ao grupo de Teatro pela obra e excelente encenação.


Ficha Técnica (conforme apresentação em outro Teatro, pois o site do Theatro da Paz mantém o péssimo costume de não apresentar a Ficha Técnica completa dos Espetáculos - o que acredito ser um pouco desrespeitoso e contraproducente para manter uma memória dos Espetáculos que passaram pela casa):

Gato por Lebre

Dramaturgia:

Saulo Sisnando

Elenco:

Flávio Ramos Moreira

Pauli Banhos

Alessandra Pinheiro

Andreza Pinto

Fernanda Coiado

Luana Paranhos

Alex Vilar

Marina Dahás

Leonardo Moraes

Marcelo Borges

Edson Aranha

 

Design de Luz:

Sônia Lopes

 

Operação de Luz:

Yasmin Ramos e Matheus Kaê

 

Figurinos:

Leonardo Pamplona

Colaboração em Figurinos:

Grazi Ribeiro

 

Operação de Som:

Mateus Freitas

 

Cenários:

Flávio Ramos Moreira

 

Colaboração na Direção de Elenco:

Edson Aranha

Pauli Banhos

 

Assistência de Direção:

Carolina Ricardino

 

Direção de Movimento:

Claudia Messeder

 

Direção Geral:


Saulo Sisnando


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