Ganesha e Vishnu em um manuscrito português do século XVIII

Há alguns anos muito me chamam atenção os deuses do chamado "hinduísmo". Vishnu especialmente. Aquele que mantém tudo que há. O mantenedor. Ganesha, por sua vez, é o sábio e próspero que remove obstáculos. Um manuscrito que encontrei

Portugal, em sua época de expansão marítima, conquistou parte da região do Sultanato de Bijapur (que na época compreendia os atuais estados de Karnataka, Maharashtra e Goa) a partir de 1510. Na época, a região era governada pelo muçulmano Yusuf Adil Khan, conhecido em Portugal como Hidalcão (uma corruptela portuguesa de seu título - "Adil Khan", Khan o Justo). 

O Estado Português na Índia existia desde os anos iniciais de 1500, e não estava nos planos de conquista, do Rei Dom Manuel, repassados para o governador Afonso de Albuquerque. Porém, o governador definiu outros planos para as possibilidades que percebeu. Diminuir o domínio muçulmano e ampliar rotas comerciais portuguesas. É daí que a região de Goa acaba conquistada por Portugal.

É com isso que se registram em português diversos hábitos e crenças "idólatras" em Goa. O manuscrito que transcrevo a seguir é um exemplo desses registros, já no século XVIII. Muito interessante notar uma compreensão um pouco diferente (talvez presente de fato em Goa ou compreendida errada pelos portugueses) sobre Ganesha (ou Ganés, como diz o trecho). No manuscrito, esse deus (ou ídolo, na ótica de Portugal) é mencionado como sendo filho de Vishnu e adotado por Shiva (que aparece no texto como Mahés - Mahesh, um dos nomes de Shiva). Essa não é uma versão comum, pois geralmente Ganesha é descrito como sendo gerado por Parvati, depois reconhecido como filho de Shiva. Vejamos o trecho:

Figuras da mitologia dos Bramanes da Azia: Para a historia destes idolatras principalmente dos de Goa. 1788. Manuscrito ilustrado. Biblioteca Nacional de Portugal. 

[Transcrição]:

Estampa 15ª

Mahés teve quatro filhos, o primeiro deles Ganés, que preside nos casamentos, e em todas as mais junções. Fazem um grande festejo ao seu ídolo no mês de setembro, e o lançam ultimamente nos rios e lagos.

Dizem que Ganés é filho adotivo de Mahés, sendo na verdade de Visnu, que dele fez entrega.

Representa-se com cabeça de elefante por lhe terem cortado a sua própria, que desapareceu em uma certa aventura, e lhe supriram com a que traz. Tem uma barriga muito grande, e está assentado sobre um rato e é cingido de uma serpente.

A sua figura é sempre de pedra preta, ou de lodo preto, pintado de vermelhão. As pernas encruzadas: dois dos seus quatro braços com uma machadinha, e um tridente; com uma pega a sua tromba, e com outra um dente seu que o arrancou. [...]

[Fim da transcrição]

Esse trecho descreve a ilustração a seguir (Estampa 15). Também coloco uma, do mesmo manuscrito que apresenta Vishnu menino. Em uma folha de figueira-de-bengala, o pequeno Vishnu e seus itens divinos flutua no oceano cósmico das águas primordiais, observado por peixes.

Figura 1 - Estampa 15, Ganesha (p.103)


Figura 2 - Estampa 2 - Vishnu (p.55)





Paisagem de passagens

Em um instante no interior do ônibus, registrei uma interessantemente comum paisagem. Um lugar de não lugar, pois quem lá chega não pretende ficar.
Do interior do ônibus vi, na paisagem, um espaço que muitos se vão para o interior. Do Estado ou do País.
Tão bela e comum paisagem de passagem.
Um terminal rodoviário que de terminal não tem nada. Porém, de Inicial possui tudo.



Em um Dia Qualquer do passado: cemitério, biblioteca e crianças fora da escola (ES-1856)


Em um Dia Qualquer do passado, um jornal do Espírito Santo, da cidade de Vitória em 03 de junho de 1856, publicava aos leitores informações que eram interessantes na época e hoje continuam sendo.

Hoje, vemos como história a discussão e mobilização pública que, para a época, foi de crucial importância. Tratava-se do uso dos territórios do Império para o enterro dos mortos. Afinal, em todos os anos, do passado, presente e futuro, irão falecer pessoas que - na maioria das vezes em nossa cultura - serão enterrados.

Precisa-se então de cemitérios.

A decisão, que aparecia no dia 03 de junho de 1856, representava uma busca que já se desenrolava desde, pelo menos, o ano de 1854. Era uma mobilização administrativa na região de Vitória a respeito do uso da chamada Ilha do Príncipe, que na época não tinha ocupação e recentemente tinha sido doada para o governo da Província do Espírito Santo. 

Pretendiam usar a Ilha do Príncipe, distante da região ocupada, para distanciar o máximo possível os corpos mortos dos corpos vivos. Os temores tinham em mente as doenças (especialmente a febre amarela), causadoras de muita mortalidade no século XIX, e a lógica de que corpos em decomposição podem contribuir com isso. A distante ilha seria então uma solução.

Porém, os planos esbarravam em questões burocráticas, financeiras e até mesmo ambientais dificultavam a criação de um cemitério na ilha. Em primeiro lugar, dependiam da autorização da Coroa, o Império do Brasil, para realizar a instauração do cemitério no lugar. Isso já causava demora na efetivação da proposta. A Lei nº 16, de 30 de julho de 1854, foi promulgada no município autorizando a solicitação do uso da Ilha do Príncipe. A autorização era de competência do Ministério da Marinha Imperial.

O uso da Ilha também era dificultado pela necessidade de gastos para a criação de um acesso viável para o transporte dos corpos, especialmente com a criação de uma ponte. Posteriormente, a característica ambiental do lugar, com terrenos alagadiços, também seria um problema na mente daqueles que temiam a decomposição de cadáveres em solos alagados e a geração de miasmas (miasmas, como se acreditava na época, eram os odores que transportavam as doenças e que supostamente sairiam de matéria em decomposição e pântanos).

Em 03 de julho de 1856, o jornal exibia um novo rumo para o cemitério em Vitória. Deixava de lado a busca pelo uso da Ilha do Príncipe, derrubando a Lei de 30 de julho de 1854, e definindo a busca por um lugar mais adequado - em todos os sentidos possíveis. A Dissertação de Paloma Barcelos Teixeira, que investiga "HISTORIOGRAFIA E DESIGUALDADE NA FORMAÇÃO TERRITORIAL DOS CEMITÉRIOS DE VITÓRIA/ES"(2022), menciona esse plano sobre o cemitério na Ilha do Príncipe, que foi abandonado.

O jornal também apresentava aos leitores o bom feito do Sr. José Marcelino Pereira de Vasconcellos, advogado e intelectual da cidade. Para enriquecer o acervo da Biblioteca, fez a doação de variados livros. Entre eles, livros que contavam a história do Brasil, discutiam Literatura e Direito.

Jornal Correio da Victoria(ES), 03 de julho de 1856, p.3.

Somando-se ao assunto de leituras, o jornal apresentava uma reclamação enviada ao jornal. O reclamante escrevia perguntando: "Por que razão havendo tantos pais de famílias, moradores deste distrito de Meaípe, que tem filhos, não os enviam a escola [...]?". A preocupação era com o futuro dessas crianças da região de Meaípe (que na época era uma vila de pescadores) e da sociedade em geral. Afinal, quem manifestou sua reclamação manifestou o temor sobre futuros "maus caminhos e exemplos" que esses pequenos, quando fossem grandes, poderiam refletir em si mesmos. Pedia-se uma fiscalização para que fossem de fato alunos da escola pública, para aprenderem bons caminhos


Parque Arqueológico do Solstício e o observatório astronômico de indígenas no Amapá, há 2 mil anos

Existem descobertas históricas e arqueológicas que deveriam se tornar famosas, divulgadas e mais pesquisadas automaticamente após serem registradas. Penso que o caso da estrutura descoberta em Calçoene (no Amapá) é um desses casos.

Trata-se do chamado Observatório Astronômico de Calçoene. Para notar o grau de importância, é frequentemente chamado de "Stonehenge brasileiro". O tal observatório é uma construção de indígena, que supõe-se ter entre 500 a 2 mil anos, criada ao organizar grandes rochas. Distribuídas da melhor forma possível para atingir os interesses astronômicos do grupo humano que desenvolveu a estrutura. Especialmente tendo a expectativa do solstício de inverno. 

Na região acima da linha do Equador (a região do Hemisfério Norte do Globo) o solstício de inverno é em dezembro. Especificamente entre 20 e 22 de dezembro. O atual Estado do Amapá, região onde se encontra o observatório, é localizado nesse hemisfério.

Os pesquisadores que iniciaram os estudos dessa construção com rochas puderam identificar que, de fato, ela era uma busca pela observação do solstício de 21 de dezembro. Nesse dia, o hemisfério tem o dia mais curto e a noite mais longa do ano, com o início do inverno. 

As estrutura, criada com a sabedoria indígena sobre os astros, marca e observa o Solstício de dezembro. Redescoberta em 2005 (em dezembro!), ainda não possui grande atenção midiática, popular, de investimentos em pesquisa ou como atração histórico-cultural. Pelo menos, não quanto poderia.

Uma fotografia do observatório aparece a seguir. Para saber mais sobre esse tema, e outras estruturas com rochas criadas na região, recomendo o livro "Os monumentos megalíticos do Amapá", do arqueólogo João Darcy de Moura Saldanha. Disponível na Biblioteca do Senado de forma gratuita: 

https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/661905/Monumentos_Megaliticos_Amapa.pdf.


A "Stonhenge" brasileira, em Calçoene. Foto de Leandroisola. Fonte: commons.wikimedia.org




Leituras