Em um Dia Qualquer do passado: cemitério, biblioteca e crianças fora da escola (ES-1856)

Em um Dia Qualquer do passado, um jornal do Espírito Santo, da cidade de Vitória em 03 de junho de 1856, publicava aos leitores informações que eram interessantes na época e hoje continuam sendo.

Hoje, vemos como história a discussão e mobilização pública que, para a época, foi de crucial importância. Tratava-se do uso dos territórios do Império para o enterro dos mortos. Afinal, em todos os anos, do passado, presente e futuro, irão falecer pessoas que - na maioria das vezes em nossa cultura - serão enterrados.

Precisa-se então de cemitérios.

A decisão, que aparecia no dia 03 de junho de 1856, representava uma busca que já se desenrolava desde, pelo menos, o ano de 1854. Era uma mobilização administrativa na região de Vitória a respeito do uso da chamada Ilha do Príncipe, que na época não tinha ocupação e recentemente tinha sido doada para o governo da Província do Espírito Santo. 

Pretendiam usar a Ilha do Príncipe, distante da região ocupada, para distanciar o máximo possível os corpos mortos dos corpos vivos. Os temores tinham em mente as doenças (especialmente a febre amarela), causadoras de muita mortalidade no século XIX, e a lógica de que corpos em decomposição podem contribuir com isso. A distante ilha seria então uma solução.

Porém, os planos esbarravam em questões burocráticas, financeiras e até mesmo ambientais dificultavam a criação de um cemitério na ilha. Em primeiro lugar, dependiam da autorização da Coroa, o Império do Brasil, para realizar a instauração do cemitério no lugar. Isso já causava demora na efetivação da proposta. A Lei nº 16, de 30 de julho de 1854, foi promulgada no município autorizando a solicitação do uso da Ilha do Príncipe. A autorização era de competência do Ministério da Marinha Imperial.

O uso da Ilha também era dificultado pela necessidade de gastos para a criação de um acesso viável para o transporte dos corpos, especialmente com a criação de uma ponte. Posteriormente, a característica ambiental do lugar, com terrenos alagadiços, também seria um problema na mente daqueles que temiam a decomposição de cadáveres em solos alagados e a geração de miasmas (miasmas, como se acreditava na época, eram os odores que transportavam as doenças e que supostamente sairiam de matéria em decomposição e pântanos).

Em 03 de julho de 1856, o jornal exibia um novo rumo para o cemitério em Vitória. Deixava de lado a busca pelo uso da Ilha do Príncipe, derrubando a Lei de 30 de julho de 1854, e definindo a busca por um lugar mais adequado - em todos os sentidos possíveis. A Dissertação de Paloma Barcelos Teixeira, que investiga "HISTORIOGRAFIA E DESIGUALDADE NA FORMAÇÃO TERRITORIAL DOS CEMITÉRIOS DE VITÓRIA/ES"(2022), menciona esse plano sobre o cemitério na Ilha do Príncipe, que foi abandonado.

O jornal também apresentava aos leitores o bom feito do Sr. José Marcelino Pereira de Vasconcellos, advogado e intelectual da cidade. Para enriquecer o acervo da Biblioteca, fez a doação de variados livros. Entre eles, livros que contavam a história do Brasil, discutiam Literatura e Direito.

Jornal Correio da Victoria(ES), 03 de julho de 1856, p.3.

Somando-se ao assunto de leituras, o jornal apresentava uma reclamação enviada ao jornal. O reclamante escrevia perguntando: "Por que razão havendo tantos pais de famílias, moradores deste distrito de Meaípe, que tem filhos, não os enviam a escola [...]?". A preocupação era com o futuro dessas crianças da região de Meaípe (que na época era uma vila de pescadores) e da sociedade em geral. Afinal, quem manifestou sua reclamação manifestou o temor sobre futuros "maus caminhos e exemplos" que esses pequenos, quando fossem grandes, poderiam refletir em si mesmos. Pedia-se uma fiscalização para que fossem de fato alunos da escola pública, para aprenderem bons caminhos


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