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CONTO - A Surucucu, a Paca e a Feiticeira



O conto parte de tradições amazônicas sobre a relação entre as pacas e as cobras surucucus (algumas tradições acreditam que a primeira paca era uma surucucu que se transformou). A carne de paca é tida como "reimosa" e para alguns isso se explica pelo contato, que parece muito uma amizade, entre as pacas e as surucucus. Dizem que até dividem a mesma toca.

Entre a relação da Paca e a Surucucu, eu acrescentei a Matinta. Essa criatura faz parte das crenças sobrenaturais amazônicas, sendo uma das mais conhecidas. É rotineiramente descrita como uma mulher idosa, feiticeira, que se transforma em um ser sobrenatural por sina, ou "fado", como preferem falar aqui na Amazônia.

Nesse breve conto, construo uma fábula amazônica que mescla tradições sobre o mundo natural e sobrenatural. Criei para um projeto que abandonei, que seria focado totalmente na figura da Matinta, daí o nome "Só Matinta".

"A SURUCUCU, A PACA E A FEITICEIRA" pode ser baixado ao clicar AQUI.

Ebook Gratuito - conto suspense/terror "A moeda e o pagamento", de Dell Cordovil



"A moeda e o pagamento é um pequeno conto de terror e suspense ambientado na cidade de Belém do Pará. O tempo em que ocorre não é muito bem definido. O narrador, principal personagem do conto, começa a sofrer com situações sobrenaturais depois de levar uma moeda de dentro do cemitério da Soledade em Belém. Datada do século XIX a moeda virá com desordem e momentos de terror para seu portador."

O conto escrito e publicado em 2020 é um suspense/terror ambientado em Belém do Pará, em um tempo não definido. De minha autoria, o livro digital agora está sendo disponibilizado gratuitamente. Pode ser baixado em PDF, basta clicar AQUI.



Conto Suspense - Ao puxar de meus dedos

NAS ÚLTIMAS NOITES venho tendo esse pesadelo. Não sei ao certo quantas noites ele já atormenta meu sono, mas está se tornando um problema.

Mesmo que eu já saiba tudo que irá acontecer ainda sinto o mesmo terror que senti quando sofri o pesadelo pela primeira vez.

A velha desgrenhada me pedindo ajuda, me puxando pelo braço. No sonho sinto uma mistura de temor e pena.

Aterrorizado por não saber quem é a senhora que me pede ajuda, por ter meu braço puxado, e, acima de tudo, pela feição assustadora da idosa. Mas com pena, compadecido da tristeza que a velha carrega no olhar. Nunca havia sonhado algo tão real e nítido. Muito menos conseguido olhar tão profundamente nos olhos de uma pessoa de um dos meus sonhos. E pior ainda, alguém que nunca conheci na vida real.

Trabalho em uma oficina de automóveis da Cidade Nova. Ganho o suficiente para me manter e ajudar minha mãe. Moro sozinho com ela em uma casa alugada na parte VIII do bairro (chamado de Cidade Nova VIII). Trabalho na parte IV.

Todo dia vou caminhando para a oficina às 6h da manhã. Normalmente as oficinas abrem a partir das 8h, justamente por isso meu patrão opta por abrir às 6h. “Menos concorrência”. O idiota não percebe que também não existe público esse horário. Talvez seja por isso que os outros abrem somente a partir das 8h, não?

Lembro-me da última vez que atendemos um cliente antes das 8h, isso foi há exato um ano. Lembro porque foi no dia de meu aniversário de 30 anos. Hoje faço 31.

Naquele dia eu andava a passos lentos pela rua We 28, caminho mais rápido para ir de casa para o trabalho. Ao chegar à metade da rua, vazia, silenciosa, pude escutar gritos altos que vinham de uma das casas. Parecia uma mulher gritando. Ouvi barulhos que não consegui distinguir. Uma aflição tomou conta de mim. Não sabia o que deveria fazer. Eram no máximo 6h 20 da manhã, os vizinhos deveriam estar dormindo, mas com barulhos como aquele seria impossível nenhum curioso sair para saber o que estava acontecendo.

Eu não sabia o que fazer. Mas já sabia de qual casa vinham os barulhos. 521.

Os gritos continuavam e eu pensei que deveria ir até lá para tentar fazer algo. 

Mas nem sempre o que devemos fazer é o que optamos por fazer.

Um desconforto tomou conta de meu corpo e mil teorias passavam pela minha cabeça. Afinal de contas era a casa 521.

O tão falado dono da casa era um homem macabro, não deveria ter mais de 40 anos. Vestia-se sempre de preto e utilizava adereços que para mim soavam demoníacos. Desde um anel com uma cabeça de bode a um colar com o que imagino ser uma pata de sapo. Falando assim parece fantasioso demais, eu também penso dessa forma. Se não tivesse topado com ele por umas duas vezes quando caminhava para a oficina também não acreditaria nessas descrições.

Não era um daqueles roqueiros, ou pelo menos ninguém nunca o viu ouvindo músicas, usando camisetas de bandas famosas, ou fones de ouvido. Diziam que ele servia a alguma coisa que não era de Deus. Toda quarta a partir das seis horas, ao que contam algumas vizinhas sentinelas, ele colocava duas velas vermelhas na janela do pátio de sua casa. As más línguas diziam que era para o demo em pessoa.

Sabendo de todos esses detalhes, o receio e incerteza tomavam conta do meu corpo. Ir até os gritos ou continuar em meu caminho? Eis a questão.

Não seria possível nenhum morador não ter escutado os gritos. Considerando a curiosidade dos moradores locais isso só aconteceria por feitiço. Agora pode parecer imbecilidade, mas no momento foi o que pensei. Seja lá o que o tal satanista estivesse fazendo não seria eu a incomodar. Meu medo foi mais intenso que minha noção de dever.

ÀS 6H 20 de uma manhã que o sol ainda não estava no alto nem todo mundo é corajoso ao se deparar com uma situação dessas. E infelizmente eu faço parte desse grupo.

Continuei minha caminhada até o trabalho.

O primeiro cliente apareceu apenas às 7h 30. Foi a última vez que me lembro de ter atendido alguém tão cedo.

Depois daquele dia não passei mais pela rua de número 28. Fazia sempre um caminho um pouco mais longo, mas preferia evitar em passar pela casa do bruxo.

Mas curiosamente hoje foi como se tivesse sido abestalhado por alguma magia. Após sair de casa no horário de 6h, lembro-me somente de começar o caminho para meu trabalho, quando me dei por mim em certo momento, me encontrava naquela maldita rua. We 28 novamente.

Já estava próximo ao final da rua. Estranhei bastante estar naquele local sem lembrar como cheguei lá. Por alguns segundos pensei ser um sonho, mas vi que não.

Continuei a caminhar quando ouvi algo que não esperava.

Os mesmos gritos. Vindos da mesma casa.

Era como há exato um ano. Na casa do bruxo alguém gritava, eu tinha certeza que os gritos vinham de lá.

Por um momento meu corpo ficou como pedra. Rígido e frio. Mas logo consegui virar de costas para olhar em direção a casa de número 521.

Não foi como da última vez. Foi bem pior.

Vi um braço estendendo-se para fora das grades da frente da casa. Nitidamente era alguém querendo sair.

Quando vi a cena fui tomado por um calafrio que subiu de minhas pernas ao mais longo fio de cabelo. Decidi sair de lá correndo e ir para a oficina. Mas essa decisão não permaneceu em minha cabeça por mais de alguns milésimos de segundo.

Minha opção dessa vez foi correr até a casa 521.

Chegando lá, quase que instantaneamente a mão que pedia ajuda segurou em meu colarinho. Fiquei apavorado, claro. Mas o que mais me apavorou foi que, como um de já vu, eu a vi novamente.

Era a velha, mas agora em carne e osso. Não era sonho, mas realidade.

Vi aqueles olhos com a mesma clareza que os via em meus pesadelos. Fui tomado por uma mistura de temor com tristeza. Sentia pena, sem saber o motivo.

Consegui me soltar por pouco tempo, pois em seguida a idosa segurou meu braço. Segurava-me com uma feição aflita. Seus olhos profundos e meio avermelhados não paravam quietos.

Segurou meu braço com tanta força que comecei a sentir dor. Ela voltou a gritar.

Nesse momento, eu também estava gritando. De dor e de terror.

Puxei-me para tentar me livrar das garras da velha, mas ela possuía uma força inexplicável.

A mão dela foi aos poucos escorregando. Mas foram “poucos” bem tortuosos. As unhas longas da idosa estavam cravadas em meu braço, ao escorregar elas passavam pela minha pele como uma faca sem dentes.

Em certo momento eu já estava quase solto. Somente minha mão era agarrada pelas garras da velha. Mas antes que eu conseguisse me soltar de vez, ela cravou suas unhas mais fundo em minha pele. Segurou minha mão com uma força assustadora, como se sua vida dependesse disso. 

Eu estava quase soltando minha mão, mas ela ainda segurava meus dedos. Ao puxar de meus dedos eu pude ter certeza de que aquela era a velha que atormentava meus pesadelos nos últimos tempos. Apertava-os e puxava-os com força. Quando segurava somente o meu indicador e anelar eu puxei meu braço com toda a força que encontrei. Consegui me soltar, mas o preço foi meus dois dedos deslocados. Gritei com a dor intensa. Fechei os olhos como se estivesse tentando acordar de um pesadelo. Quando ergui minha cabeça e abri meus olhos foi como se tudo não passasse mesmo de um sonho.

Não havia mais velha nenhuma. Só o pátio vazio da casa 521.

Ouvi um barulho vindo da janela do pátio. Era o som de trincos sendo abertos. Uma das portas da janela abriu e eu pude ver o tal homem macabro. A casa por dentro estava escura. Ele segurava uma vela de cor vermelha e estava sem camisa.

Perguntou o que estava acontecendo, porque eu estava gritando.

Eu não consegui dizer nada. Somente corri. Mas não para o trabalho. Voltei para casa.

Chegando lá mil pensamentos passavam por minha cabeça. Mas o mais forte era se aquela velha seria a mesma mulher que gritava há exato um ano atrás. Será que eu devia algo para ela por não ter tentado ajudar quando pude? Ela morreu?

Não sei o que pensar sobre isso, na verdade não quero pensar nada. Só o que sei é que meu patrão me ligou dizendo que hoje o primeiro cliente apareceu às 7h. É um dia daqueles que fica na memória.

Pioneiros do Asfalto

 


Desde aproximadamente o ano de 625 A.C, na Babilônia, a mistura quente denominada asfalto vem se desenvolvendo. No início não era produzido do petróleo, longe disso, e sim de piche retirado de lagos pastosos. Somente no século XX, bem pelo início do século, que essa tal mistura é produzida com o uso de petróleo. 

Menos custoso, ao menos monetariamente falando, o asfalto agora é exclusivamente responsabilidade do petróleo. Na realidade, não tão somente do petróleo. A responsabilidade dessa produção é também dos nobres funcionários públicos chamados de governantes, ou simplesmente políticos. Esses tais políticos aparecem desde as pólis gregas. Aristóteles já dizia que idiota era aquele que não participava da política - hoje o que se vê é o inverso. 

Para felicidade do povo e bem da nação todos podemos (leia-se “somos obrigados por Lei”) escolher entre os menos piores. Só não sabemos quanto tempo ficam no cargo até outro um pouco pior utilizar da democracia para “desdemocratizar” nossa polis do tempo presente, mas isso é detalhe.

Os nobríssimos funcionários públicos governantes, que de tão nobres imaginam-se como sendo os patrões, diante de tão grandiosa construção histórica da tecnologia e da política hoje possuem o fardo de ter de decidir quais misturas utilizar para a produção do tão requerido asfalto. Seria melhor usar cimento asfáltico de petróleo? Ou asfalto diluído de petróleo? Talvez emulsão asfáltica? Coitados dos governantes, eu os imagino tendo que decidir entre o “ser ou não ser”. Deve ser cruel.

Talvez por conta dessa dúvida, que nem os babilônicos ou os gregos precisavam se preocupar, que seja tão comum notar pela cidade os orifícios da dúvida. Nós, simples idiotas (nem sei mais se no sentido de Aristóteles ou mesmo no atual), muitas vezes não conseguimos escapar dessa tão amarga dúvida e acabamos com o automóvel atolado em um buraco.

Mas tem aqueles políticos que próximo de outubro, de quatro em quatro anos, não têm dúvida alguma sobre qual composto utilizar para a produção. Muitas vezes a única dúvida parece ser “onde não asfaltar?”, pois a certeza parece ser que o asfalto é a solução para todos os problemas. Esses que acreditam que a mistura quente é a solução para os problemas existem em muitos cantos do Brasil, de São Paulo, Belém à Ananindeua. Esses pioneiros do asfalto, políticos, funcionários públicos, acreditam que devemos ser gratos quando o asfalto chega até nossas ruas. Claro que devemos ser! Eles tiveram uma dúvida mortal para responder, e ainda mais! Vão ter a mesma dúvida em poucos meses, pois o asfalto não dura 12.

O seu Bernardo, aos seus 56 anos de idade, se acha no direito de reclamar e praguejar simplesmente por ter caído da bicicleta por conta de uma cratera em frente ao Lua de Prata na Cidade Nova. Pois saiba que deveria ser grato, seu Bernardo, afinal de contas, não possuiu nas costas o peso de ter que decidir entre cimento asfáltico, asfalto diluído ou emulsão asfáltica.


CONTO - Os gafanhotos vêm para ajudar


Imagem editada da original disponível em https://pixabay.com/Imagem de: nockewell1


A criatura já se deslumbrava com o trono por dezessete meses e vinte e três dias. Muitos emergiram do fundo do abismo, no qual espreitavam na escuridão, para com seus braços e com suas mãos levantarem a criatura até onde hoje ela habita. Vários outros da superfície, por suposto medo da cor do sangue, utilizaram seus braços e suas mãos, como aqueles do abismo, para elevar a criatura até onde ela queria habitar.

Agora eles têm sobre si como rei o anjo do abismo, chamado em hebraico de Abadom, e em grego de Apoliom. Vangloriam-se de seu mestre.

- Preservá-lo-ei até o fim!

É o grito que alguns ainda não se envergonham em gritar. Uns tantos do abismo, outros poucos da superfície.

- Eles mentem sobre o mestre! São profissionais na criação de mentiras!

- Todos os outros têm parte com o inimigo! Apenas nosso mestre nos salvará!

São essas as mentiras que continuam a repetir para si mesmos como se verdades fossem. Mas por cima de seus muros, pelas janelas fechadas ou abertas, nos cômodos de suas casas eles já sabem.

A criatura se clamava como límpida. Nenhuma sujeira nas solas de seus pés havia. Era mentira. Quando muitos da superfície notaram, trataram de se arrepender. Mas os do abismo não se importavam. A criatura os satisfazia. E ainda satisfaz.

Muitas nuvens de chuva pairavam pela cabeça da criatura. Não eram nuvens comuns de chuva. Aquela água que de lá desmoronaria não iria alimentar nenhum animal. Nenhuma planta se poria a tentar absorver qualquer gota que fosse. Mais ácida que o mais ácido dos ácidos.

Queimaria a língua daqueles do abismo, daqueles da superfície, e também da própria criatura.

- Preservá-lo-ei até o fim!

Dirão ainda muitos, mesmo com suas línguas latejando de vergonha.

A criatura cria mentiras. Mentiras criaram a criatura. A criatura se mantém com as mentiras. Mentiras manterão a criatura.

Para os pobres, que da peste padecem, nem consolar em falsidade a criatura se dispõe. A criatura pedira 30 mil, mas conseguira 50 mil.

Fogo e Fúria emergem da boca da criatura. Não é um proletário, daqueles que fazem viver o maquinário. Porém se preocupa apenas e somente com sua prole.

Os braços que o ergueram aos poucos se recolhem. Sem o sustento alucinado, que aos poucos se amiúda, a criatura busca refúgio quase desesperada.

Vêm pelo Sul. Seus ajudantes vêm pelo Sul. Com a secura como a da garganta de fogo da criatura, com o calor como o dos urros daqueles do abismo, se construirão as circunstâncias vantajosas para a ajuda que se aproxima.

O que se espera é o soprar de uma frente fria para erradicar os ajudantes da criatura. O bater de pequenas asas alguns já escutam. Virão destruindo plantações. Destruindo como o seu mestre quer destruir. O anjo do abismo. O rei dos gafanhotos.

Leituras