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Nazismo e arianismo: um tema mal ensinado

Hitler não ter nascido na Alemanha não era, na visão nazista, um demérito.

No senso comum, que chega a comentar o tema, e mesmo em aulas de História (nas que eu tive no Ensino Básico, por exemplo) o fato de Adolf Hitler ter nascido na Áustria - e não Alemanha - é apresentado como uma contradição.

Afinal, o líder nazista defendia a teoria de que os alemães eram da "raça" dos "arianos", mas não era nascido na Alemanha.

Acontece que isso é uma incompreensão da realidade histórica a respeito do pensamento racial do Nacional Socialismo Alemão.

A crença metafísica dos nazistas (pois era uma interpretação que unia uma lógica material com uma lógica transcendental - fortemente crítica ao materialismo Marxista e ao materialismo individualista do Liberalismo) compreendia a "raça" alemã como uma descendência direta, e mais "pura", dos "arianos".

O termo deriva de "arya", palavra com raiz indo-iraniana, e aparecia em textos hinduístas (os famosos "Vedas") se referindo a um povo "nobre" e "honrado". Durante o século XIX, estudos de linguística comparada perceberam semelhanças muito significativas em idiomas antigos como o Sânscrito, Persa antigo, Celta, Germânico, Grego e Latim. Foram considerados como idiomas indo-europeus.

Os falantes originais das línguas indo-europeias orientais foram denominados no campo da Linguística de "arianos", especialmente os que originaram o Sânscrito e Persa.

Entre alguns, os arianos foram reconhecidos não apenas como falantes de um idioma comum, mas originados de uma "raça" comum.

Os membros nazistas tiveram contato com leituras de produções da Linguística, Arqueologia e Antropologia que sugeriam a existência de um povo indo-europeu dominante. Esse povo teria conquistado a maior parte do globo em algum momento obscuro do passado.

Entre os pensadores que influenciaram fortemente o pensamento dos nazistas estão Arthur de Gobineau (que publicou um livro sobre raças humanas em 1853, colocando os arianos como superiores - Heinrich Himmler menciona esse como um dos pilares do pensamento racial nazista), e do genro de Richard Wagner, Houston Stewart Chamberlain (que publicou, em 1899, uma extensa obra defendendo que a história da Europa era uma luta entre duas raças: raça germânica, o ápice da cultura, e a raça judaica, o declínio de qualquer grupo social, antinatural e parasita).

Início do livro de Chamberlain, citando Arianos. 1899. Fonte: archive.org.


Gobineau era pessimista em sua visão racial. Acreditava ser impossível resgatar a "pureza" dos arianos. Diferente de Chamberlain. Esse chegou a encontrar pessoalmente com Hitler em 1923, manifestou que via nele a esperança da Alemanha e um homem enviado por ordens divinas (uma leitura de "salvador" sobrenatural que depois aumentaria).

Os nazistas seguiam a mesma lógica otimista para suas ideias raciais. Acreditavam ser possível recuperar a "raça ariana".

Membros do nazismo consumiram essas produções, mas também pesquisas Arqueológicas.

Ainda no século XIX, arqueólogos buscavam vestígios dos arianos. Conseguiram encontrar, em escavações na Europa,  Índia e Ásia Central, um frequente símbolo: a suástica. Existia a interpretação que os arianos teriam dominado essa região. Ainda emergiu a hipótese de que teriam ampliado sua ocupação por outras regiões em busca de expansão.

Nazistas acolheram e reformularam - com base em suas próprias leituras de mundo - ideias que uniam os arianos, o meio ambiente, a história e uma expectativa de futuro. Concordaram com interpretações que viam o Norte da Europa como berço dos "verdadeiros arianos". Os germânicos seriam então os arianos mais "puros".

Quando os nazistas falavam em Alemanha, não se referiam àquela divisão política existente no século XIX e início do XX. Eles se referiam a uma sociedade que pensavam ter existido em um passado distante. Uma sociedade construída com os valores "superiores" dos tais arianos/germânicos. Mas não apenas isso. Não pretendiam recuperar um passado imaginado e o conservar. Seu interesse era "salvar" a raça alemã e construir uma Alemanha melhor e maior do que a do passado e do presente. A visão do Nacional Socialismo Alemão era a de realizar uma revolução cultural e racial. No centro dessa revolução estava o embate entre arianos (supostamente superiores, com melhor cultura e mais fortes) contra os judeus (supostamente inferiores, parasitas do meio ambiente alemão, destruidores da cultura alemã - seriam os criadores tanto do materialismo marxista quanto do individualismo capitalista).

Por raça alemã eles não compreendiam apenas quem nascia na divisão política que naquele século era chamada de Alemanha. Eles compreendiam como parte da raça alemã todos aqueles que compartilhassem a "pureza" do sangue ariano/germânico.

Hitler não ter nascido na Alemanha e sim na Áustria, mas ter o "sangue ariano", não era algo que contaria negativamente. Isso, na visão racial nazista, era um ampliador de suas crenças. Afinal, era um exemplo de como a Alemanha deveria se ampliar para todas as regiões em que os arianos estivessem.

Isso simbolizava a legitimidade para a incorporação da Áustria, e de outras regiões, pela Alemanha que os nazistas desejavam construir.

A simbologia não era exclusiva de Adolf Hitler. O seu "vice" no Partido Nazista, o pouquíssimo comentado Rudolf Hess, não era nascido na Alemanha. Também não nasceu na Áustria. Na verdade, em nenhum país da Europa. Hess nasceu, de pais "germânicos", no Egito. Para ser mais específico, na cidade de Alexandria.

Assim como Hitler, Hess também era considerado como membro do volkisch alemão. Esse volkish era um sentimento idealizado que supostamente unia, de forma orgânica, a Alemanha material (solo - sinônimo de meio ambiente - e sangue) com o povo alemão/germânico. Também unia os germânicos entre si mesmos. 

Era então uma conexão dos alemães entre si, em uma comunidade, e com a própria Natureza da Alemanha. Nessa lógica, os nazistas buscavam recuperar aquilo que consideravam ser o verdadeiro Socialismo. Ele seria de origem germânica, nacional e transcendental. Diferindo drasticamente do Socialismo Marxista, que eles acreditavam ser uma deturpação judaica. 

Nazistas, nessa lógica de Socialismo Alemão, inclusive mantinham a ideia de que o "bem comum" (do volkisch) deveria estar acima da vontade individual (que seria parte do liberalismo-capitalismo, também compreendido como deturpação dos judeus).

No geral, em aulas de História, do Ensino Básico e mesmo Superior, as ideias raciais do Nazismo são simplificadas. Dando margem para compreensões equivocadas sobre como funcionava o pensamento racista dos nazistas.

Penso que é importante, para nós profissionais da área da História e qualquer um que tente falar sobre a história, compreender a complexidade da realidade. Do presente e do passado.

Referências:

CHAMBERLAIN, H. S. The Foundations of the Nineteenth Century. London: Swan Sonnenschein & Co., 1899.

EVANS, Richard J. A chegada do Terceiro Reich. Tradução de Renato Marques. São Paulo: Planeta do Brasil, 2010.

GOBINEAU, Arthur. An Essay on the Inequality of the Human Races. New York: Burt Franklin, 1853.

GOODRICK-CLARKE, Nicholas. The Occult Roots of Nazism: The Ariosophists of Austria and Germany, 1890–1935. London: Aquarian Press, 1985.

STAUDENMAIER, Peter. Between Occultism and Nazism: Anthroposophy and the Politics of Race in the Fascist Era. Leiden. Boston: Brill, 2014.

UEKöTTER, F. The Green and the Brown: A History of Conservation in Nazi Germany. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.

VITTE, Antonio Carlos. A preservação da paisagem e a conservação da natureza no III Reich. Confins: Revista Franco-Brasileira de Geografia, [Paris], n. 32, p. 1-14, 2017.

WEIKART, Richard. From Darwin to Hitler: Evolutionary Ethics, Eugenics and Racism in Germany. New York: Palgrave Macmillan, 2004.

Os animais de Otto Franz Scholderer (1834-1902)

Nascido na cidade de Frankfurt am Main, no ano de 1834, Otto Franz Scholderer era filho de Johann Christoph Scholderer e Emilie Scholderer (nascida Emilie Kiefhaber). Enquanto sua mãe cuidava da casa e dos filhos, seu pai trabalhava como professor na Musterschule, uma escola de ensino secundário.


Autorretrato com utensílios de pintura. 1861/62. Coleção: Städel Museum. Fonte: commons.wikimedia.org.


Johann, o pai do artista, foi político por curto período. Foi eleito, em 1848, para a Assembleia Constituinte da cidade, mas renunciou no ano seguinte: 1849. Foi nesse mesmo ano que Otto Scholderer entrou para a Academia de Arte de Städel, localizada na cidade em que nasceu e cresceu. Entre seus professores, teve Jakob Becker, um importante nome do Realismo na Alemanha.

O artista teve certo reconhecimento durante seu período na Inglaterra. Porém, ainda antes de seu retorno à Alemanha, aos poucos perdia destaque e, nos dias de hoje, é frequentemente mencionado como um pintor que caiu na "obscuridade".

Não se consolidou como um grande nome na História da Arte, como aqueles que inspiraram sua arte: Édouard Manet e Gustave Courbet.

Suas pinturas representaram paisagens, retratos e, especialmente, natureza-morta. Atualmente, Scholderer é visto como um artista que produziu obras que estavam entre o Romantismo e o Impressionismo.

É um artista que aprecio muito, especialmente quando mistura humanos e animais. Apresento aqui duas de suas obras. Talvez não sejam obras finalizadas. Afinal, são desenhos que provavelmente serviriam como estudo para uma pintura. Comento brevemente cada um.

Der junge Wilddieb (O jovem caçador furtivo). 1889. Coleção: Städel Museum. Fonte: Sammlung.

Esse é um desenho feito com giz preto em papel artesanal (Büttenpapier). Scholderer representa uma cena de caçada. Os protagonistas são o pai (sentado olhando para o espectador, que observa o momento), o filho (segurando próximo ao corpo sua caça) e, não se pode deixar de notar, o cão de caça que, sem dúvida, foi fundamental para o sucesso da empreitada (e ainda se mantém muito atento).

A característica de furtividade dos caçadores, expressa também no título, foi indispensável para a captura. Os animais capturados, que servirão de alimento ou serão comercializados pela família, aparentemente são lebres. Espécie muito presente nas pinturas de Otto Scholderer. Sempre representados como natureza-morta. Os cadáveres de lebre, resultantes das caçadas, são desenhados e pintados pelo artista que observava a vida rotineira.

O campo é o ambiente onde se desenvolve a ação dos protagonistas.

No desenho seguinte, saímos do campo para o ambiente da cidade. As duas cenas poderiam até ser vistas como complementares. Afinal, observaremos agora o local de venda de caças.


No vendedor de carne de caça (Beim Wildbrethändler). 1890. Coleção: Städel Museum. Fonte: Sammlung.

A técnica utilizada para o desenho é a mesma. O ambiente, como pode ser visto, é muito diferente. Retrata o interior do ponto de venda de um comerciante de carne de caça. Uma lebre é suspensa, morta, entre aves igualmente abatidas.

Em primeiro plano, dois homens dialogam sobre algo. Um deles segura um cesto cheio, o outro mantém uma faca na mão direita, enquanto ajusta o avental. Os desatentos talvez não percebam, mas ao fundo uma mulher está atenta, saindo de dentro do outro cômodo. Ouve os homens ao mesmo tempo em que enxuga suas mãos. Quem sabe, os homens discutem sobre alguma entrega, e a mulher limpa as mãos depois de retirar a pele de alguma caça. Nunca saberemos.

A cena deste segundo desenho aparece em outros momentos na arte de Scholderer. Conheço duas pinturas finalizadas, atribuídas a ele, que registram algo muito semelhante. Além de outros desenhos.

Podemos concluir que o artista percebeu e contemplou os ambientes de abate e venda de caças. Os animais de Scholderer, nessas cenas, aparecem já sem vida. Abatidos pelo cotidiano dos animais humanos, que também precisam comer. Comem para viver e para saborear. 

Por isso, caçam para si ou para comercializar.

Essas obras nos lembram que a vida comum pode sempre ser vista como uma obra de arte.

Quadra para São Frutuoso



Quadra para São Frutuoso


São Frutuoso de Constantim,

rogue do céu por mim.

Peça Serafins aos meus lados,

proteja-me dos cães danados.




Escrevi esta quadra, literalmente apenas uma, para participar da 4ª Homenagem aos Santos Populares, organizada pelo escritor Juvenal Nunes, pelo seu Blog Palavras Aladas.

Minha inspiração foi um Santo sobre o qual eu estava pesquisando há alguns meses. Não lembro como me deparei com São Frutuoso de Constantim (Portugal). Nem sei se o encontrei primeiro ou ao tema da "mordedura de cães danados".

Como sabemos, em um passado muito recente, a medicina ainda não tinha muito conhecimento sobre diversos detalhes do funcionamento biológico humano. Além disso, mesmo quando começaram a desenvolver tecnologias medicinais, muitas vezes a maioria das pessoas não tinha acesso.

O que restava, com a ausência de tratamentos médicos, era rezar e pedir intercessão dos Santos. Esse foi o caso com a doença chamada "raiva", que pode ser transmitida por cães, entre outras espécies, para os humanos por meio da mordida.

Era comum existir padroeiros e orações para Santos específicos que auxiliavam no combate a certas doenças. Seja protegendo delas ou curando os contaminados. Em Portugal do século XIX, ainda se mantinham fortes as preces contra "mordeduras"/mordidas de "cães danados". Esse termo era usado popularmente para denominar os cães contaminados pela raiva.

Um dos padroeiros contra as mordeduras de cães era São Frutuoso de Constantim, que foi muitas vezes confundido com São Frutuoso de Braga (confusão entre nomes de Santos muito comum desde a Idade Média). O Frutuoso de Constantim teria vivido por volta do século IX.

Pelo menos duas relíquias sagradas, usadas contra mordeduras, foram atribuídas a São Frutuoso. Uma delas era o "Dente de São Frutuoso", a outra, a "Sagrada Cabeça de São Frutuoso". A primeira é óbvia, um suposto dente do Santo que protegia os enfermos de raiva (faz muito sentido ser um dente, já que é uma doença transmitida por mordida). A segunda relíquia é um pedaço superior do crânio de São Frutuoso. Ambas eram usadas para curar as mordeduras dos cães danados.

Não deixarei referências bibliográficas sobre o tema, mas recomendo a ótima página da cidade de Constantim, em Portugal, que trata sobre o Santo:

Meu novo desejo impossível: ter conhecido as obras de Sabin Balasa desde sempre

 


Comparado com a maioria das pessoas, nos dias atuais não tenho muitos desejos. Felizmente. Os que tenho não são tão complicados de se realizar em médio prazo. Porém, ganhei um novo desejo impossível. Quando uso o termo não é como força de expressão, artifício retórico ou hipérbole para decoração de uma frase. É literalmente impossível. Há poucos dias conheci as obras visuais e audiovisuais do artista Sabin Bălașa (essa grafia original leva acentos que não sei nem como usar pelo notebook). E desejei ter conhecido esse artista desde sempre. Algo que é naturalmente e sobrenaturalmente impossível de se realizar.

O desejo surgiu desde o primeiro contato com as obras de Balasa. Aos meus olhos expressam uma mistura de nonsense metafísico-cósmico. Uma beleza inquietante.

Sabin Balasa. Fonte: www.sabinbalasa.com.

Balasa foi um artista romeno que viveu entre 1932 e 2008. Segundo o Wikipedia, ele foi filho de um padre (não tem informações sobre isso, mas é possível que tenha sido um homem já casado que se tornou padre da Igreja Ortodoxa - o que é permitido, mas não é permitido casar depois de ser ordenado) e de uma professora. Tristemente o site oficial de Balasa só informa sobre suas formações na arte, prêmios, etc. Não fornece detalhes de vida para além disso. Pelo contato que tive com sua obra, acredito que o site oficial faz a melhor definição possível de sua Arte:

"Ele criou um universo único de figuras arquetípicas e temas metafísicos, que expressou em suas pinturas por meio de uma estrutura poética e filosófica imersa em uma atmosfera romântica e cósmica. Suas obras estão presentes em diversas coleções públicas, incluindo o Museu Nacional de Arte da Romênia, e em coleções particulares em todo o mundo".

O site também apresenta uma fala do próprio Sabin Balasa sobre sua Arte:

"Minha arte é um sonho eterno, não só meu, mas também um sonho da humanidade. Sem a participação da humanidade, a arte permaneceria apenas um sonho oculto. Estou convencido de que trago mais beleza e razão ao mundo, numa época em que as pessoas, cansadas de palavras vazias, precisam de apoio espiritual. A arte é uma mensagem individual endereçada à humanidade. Eu habito no abismo e pinto o que vejo com os olhos da minha mente; para mim a arte é uma visão, um ato de generosidade, um ato supremo de liberdade individual, um grande poder de amar. Na vida, como na arte, segui meu próprio caminho; perpetuei meu sonho, ajudando outros a descobrirem os seus. Vivo para criar, sempre sabendo ser e permanecer vitorioso".

Encontrei essa outra frase, atribuída a ele pelo trabalho de Daniel Banica, que achei muito interessante: "ARTE - significa desenvolvimento da realidade através de uma linguagem profunda [...] Arte está nas mãos de todos, mas nasce de apenas um dos pais, pois seu criador é solitário". Creio que traduzi bem o trecho. 

Queria ter conhecido as obras de Balasa desde que nasci.

Aquele que também quiser conhecer, que procure.


Referências:

Daniel Banica. Creativity and creation in the socio-military medium. 2013. Disponível em: https://ns.afahc.ro/ro/afases/2013/socio/BANICA.pdf 
Sabin Balasa. Site Oficial. Disponível em: www.sabinbalasa.com.
Sabin Balasa. Wikipedia. Disponível em: https://ro.wikipedia.org/wiki/Sabin_B%C4%83la%C8%99a


COP 30 Nasceu morta


Com o atual cenário mundial de guerra, temor de guerra na Europa e Oriente, conflito econômico intenso entre EUA e China, e com Donald Trump sendo Presidente dos EUA, a COP 30 infelizmente nasceu morta.

O ambiente internacional não é propício para uma COP com resultados efetivos para planejar e investir (os países ricos) grandes montantes para a questão ambiental. Quando sua casa está em chamas você não senta e planeja como diminuir queimadas na Amazônia, você apaga o fogo da sua casa. Depois pensa no dinheiro para a energia elétrica do fim do mês, até porque mortos não precisam de energia elétrica, ou de Meio Ambiente equilibrado. O atual movimento no globo é dos EUA tentando não perder espaço para China, e grande parte da Europa temendo uma expansão da Rússia. Fora as últimas notícias sobre a Índia e Paquistão. 

Como discutir seriamente o investimento (especificamente o Brasil conseguir ganhar investimento de países com capacidade para isso) e políticas contra problemas ambientais sem saber se as sociedades como conhecemos existirão no ano que vem? Exagero, em certa medida, esse "fim" das sociedades. Porém, as possíveis mudanças drásticas não são exagero. Quem da Europa vai investir o suficiente tendo em vista que precisam investir muito nos próprios exércitos? Com Trump fora da Mesa de negociação, ainda existe algum sentido na COP 30? China vai estar disposta a assumir o papel dos EUA? Rússia?

Para além disso, creio que antes de discussões internacionais, planejamento local, regional e nacional é indispesnável. Sem ele o que o Brasil quer da COP 30? Para onde a Amazônia, para falar apenas de uma região do Brasil, quer caminhar? O governador perguntou isso para a população? Ao mesmo tempo que o Governo Federal apoiou uma COP 30 no Brasil, é altamente defensor da exploração de petróleo na Foz do Amazonas. 

É totalmente compreensível o interesse em explorar petróleo. É justo quando se planeja mais postos de trabalho, tecnologia (inclusive investimento em novas), comércio internacional, arrecadação, etc. Mas inegavelmente é contraditório com a COP 30. É nítido que depois da COP 30 o Governo Federal e Estaduais estarão empenhados em realizar a exploração desse petróleo. Compreensível. Caso a população local e regional deseje um planejamento de desenvolvimento regional e nacional dentro da economia do petróleo e tudo que está ligado com ele, bônus e danos, até eu apoio essa exploração. Mas alguém perguntou o que a população quer?

O Governo Estadual do Pará e Municipal de Belém estão abertamente tratando a COP 30 como a Copa que não foi. A Copa de 2014 que Belém perdeu para Manaus, que sediou os jogos. Pretende realizar melhorias estruturais (muito bem vindas) que poderiam ter sido feitas com os investimentos para a Copa. Falam, especialmente o Prefeito, na COP como um grande momento para a economia local. Certo... Mas e o tema da COP, como fica? Soluções sustentáveis, planejamento para conseguir investimento em pesquisa científica, tecnologia, parcerias internacionais, etc. Belém sabe o que quer da COP 30? E o Pará? E o Brasil?

Sei que em um cenário de caos internacional, como o atual, é possível pensar e investir em energias renováveis (como a União Europeia pesquisando coleta de energia solar no espaço, até pelo problema com a dependência de fontes russas de energia - China seguindo um caminho semelhante com essa tecnologia - enquanto Trump quer voltar ao carvão sem planos de mudar isso). Porém, os países estão dispostos a compartilhar investimento e conhecimento com o Brasil? O Brasil quer isso na COP? O Pará quer algo além de movimentar a economia de Belém e regiões nesse período da COP 30?

A COP 30 já nasceu morta quando em plano local e regional não existe nenhum planejamento de desenvolvimento sustentável que pretendem impulsionar com essa Conferência. E não existe, ou não parece existir, discussão a respeito dos objetivos locais/regionais/nacional com o evento. O atestado foi confirmado com o cenário internacional nada propício para eventos internacionais efetivos para sustentabilidade. COP 30 acaba, falando sobre como devemos usar energias renováveis, e no dia seguinte o Governo está fazendo o projeto de exploração de petróleo na Foz do Amazonas.

Talvez fosse mais efetivo um evento de âmbito nacional. Menos custoso e mais eficaz para planejar e executar. É possível levar a COP 30 a sério regionalmente quando a população local migra para áreas distantes em busca de menos violência e algum emprego? Não seria melhor pensar primeiro em âmbito local, regional e nacional antes de buscar investimentos internacionais? Quem sabe ainda dê tempo para a COP 31. 

Um dos resultados atuais da COP 30 em Belém é a inflação.

CRÍTICA - Justiça Jovem vol. 1, Aceitável, mas não o esperado.

Capa alternativa de Young Justice 4, por Dan Mora.
Fonte: Justiça Jovem vol. 1 (2020). 

Lançado pela Panini no dia 11 de Setembro de 2020, só comprei o encadernado com as primeiras 6 edições de Justiça Jovem (Young Justice) esses dias. Estava com uma expectativa para a aparição da Lanterna Nerd (ou Teen Lantern no original), primeiro porque sempre fico empolgado com um novo Lanterna humano, mais ainda quando é da América Latina. 

Tudo bem que a Keli Quintela, Boliviana da cidade de La Paz, não é uma Lanterna Verde convencional. Afinal o que ela fez foi hackear uma bateria de energia da Vontade, o combustível ecologicamente correto dos Lanternas Verdes. Detalhe que a criança tem apenas 9 11 anos. Infelizmente Quintela tem pouquíssimo espaço nas primeiras edições que estão nesse volume.

Consumi o encadernado com mais incômodo do que diversão. Para um reinício as coisas foram rápido demais. O clímax curto, quando parece que iniciou ele acaba.

O roteiro de Brian Michael Bendis está aceitável, ainda não consigo chamar de bom. Seus diálogos estão bons, mas em alguns momentos me incomodaram, menos os do Impulso, ele sempre está muito engraçado. A grande combinação de Brian Michael Bendis (roteiro) e Jamal Campbell (arte) talvez tenham sido a fórmula para tornar os diálogos de Naomi (outro quadrinho da DC lançado no Brasil recentemente) muito confortáveis e toda a história mais dinâmica e com movimento. 

Já em Justiça Jovem, somando Bendis (roteiro) mais Patrick Gleason e John Timms (ambos na arte), os diálogos rápidos me causaram mais atenção para que a arte parece sempre estar em ausência de movimento. Passagens muito abruptas de um quadro para o outro também geram desconforto e questionamentos de "Como isso aconteceu sendo que antes era isso aqui?". Nos quadrinhos antigos essa sensação não ocorrida por conta dos retângulos amarelos que explicavam o que se dava entre um quadrinho e outro, mas ninguém usa isso hoje em dia - seria mais confortável colocarem isso nessas edições.

A arte provocou uma sensação de que a história queria acabar logo. Parece que era apenas um prólogo sem importância, mas sempre afirmando "Você vai gostar do que está por vir". Mas eu queria gostar do que estava acontecendo...

O que gerou muito incômodo foram as diferenças nos desenhos de uma edição para outra - e as vezes de uma página para a outra! Em alguns momentos era necessário até voltar para ver se o personagem ainda era o mesmo ou entramos em uma dimensão paralela. O que ocorreu principalmente com Keli Quintela (em um momento ela parece ter cinco anos, em outro aparenta ter quinze), Ametista e Superboy. A Lanterna Quintela e Ametista deveriam ser os destaques, já que Quintela está em sua primeira aparição e Ametista reaparecendo depois de um tempo na geladeira. 

A edição brasileira está muito bem feita. A encadernação está mais bonita do que a da Naomi, usando aparentemente os mesmos papéis da capa e miolo com a diferença que apresenta leves relevos em alguns personagens. Tradução e edução por Rodrigo Oliveira, adaptação de Pedro Catarino e letras por Flávio Soares.

Só o que me influencia a comprar o volume 2 é saber que vai ter bem mais de Keli Quintela do que o volume 1. Mas se fosse depender do conteúdo desse volume para continuar lendo iria preferir ficar só nesse mesmo. Para concordar ou discordar comigo, só lendo.

CONTO - Os gafanhotos vêm para ajudar


Imagem editada da original disponível em https://pixabay.com/Imagem de: nockewell1


A criatura já se deslumbrava com o trono por dezessete meses e vinte e três dias. Muitos emergiram do fundo do abismo, no qual espreitavam na escuridão, para com seus braços e com suas mãos levantarem a criatura até onde hoje ela habita. Vários outros da superfície, por suposto medo da cor do sangue, utilizaram seus braços e suas mãos, como aqueles do abismo, para elevar a criatura até onde ela queria habitar.

Agora eles têm sobre si como rei o anjo do abismo, chamado em hebraico de Abadom, e em grego de Apoliom. Vangloriam-se de seu mestre.

- Preservá-lo-ei até o fim!

É o grito que alguns ainda não se envergonham em gritar. Uns tantos do abismo, outros poucos da superfície.

- Eles mentem sobre o mestre! São profissionais na criação de mentiras!

- Todos os outros têm parte com o inimigo! Apenas nosso mestre nos salvará!

São essas as mentiras que continuam a repetir para si mesmos como se verdades fossem. Mas por cima de seus muros, pelas janelas fechadas ou abertas, nos cômodos de suas casas eles já sabem.

A criatura se clamava como límpida. Nenhuma sujeira nas solas de seus pés havia. Era mentira. Quando muitos da superfície notaram, trataram de se arrepender. Mas os do abismo não se importavam. A criatura os satisfazia. E ainda satisfaz.

Muitas nuvens de chuva pairavam pela cabeça da criatura. Não eram nuvens comuns de chuva. Aquela água que de lá desmoronaria não iria alimentar nenhum animal. Nenhuma planta se poria a tentar absorver qualquer gota que fosse. Mais ácida que o mais ácido dos ácidos.

Queimaria a língua daqueles do abismo, daqueles da superfície, e também da própria criatura.

- Preservá-lo-ei até o fim!

Dirão ainda muitos, mesmo com suas línguas latejando de vergonha.

A criatura cria mentiras. Mentiras criaram a criatura. A criatura se mantém com as mentiras. Mentiras manterão a criatura.

Para os pobres, que da peste padecem, nem consolar em falsidade a criatura se dispõe. A criatura pedira 30 mil, mas conseguira 50 mil.

Fogo e Fúria emergem da boca da criatura. Não é um proletário, daqueles que fazem viver o maquinário. Porém se preocupa apenas e somente com sua prole.

Os braços que o ergueram aos poucos se recolhem. Sem o sustento alucinado, que aos poucos se amiúda, a criatura busca refúgio quase desesperada.

Vêm pelo Sul. Seus ajudantes vêm pelo Sul. Com a secura como a da garganta de fogo da criatura, com o calor como o dos urros daqueles do abismo, se construirão as circunstâncias vantajosas para a ajuda que se aproxima.

O que se espera é o soprar de uma frente fria para erradicar os ajudantes da criatura. O bater de pequenas asas alguns já escutam. Virão destruindo plantações. Destruindo como o seu mestre quer destruir. O anjo do abismo. O rei dos gafanhotos.

POR QUE HOJE O BRASILEIRO ODEIA A SOCIAL DEMOCRACIA?


Lula recebe faixa presidencial de FHC em 2003. Foto de Orlando Kissner.

Um conceito que remonta do século XIX, a Social Democracia ganha visibilidade como um modelo de socialistas do século XX que se distanciavam cada vez mais das ideias revolucionárias marxianas e marxistas. Com o passar da história o conceito de Social Democracia torna-se sinônimo de políticas aos modelos de John Keynes. As formas de observar o passado e viver o presente daqueles da Social Democracia compreendiam que para solucionar os problemas de uma economia de mercado a derrubada de suas bases não era a única solução (como prega a teoria de Marx e dos marxistas).

Muito mais viável seria manter um Estado que vive em uma economia de mercado, mas não aos moldes de uma “sociedade livre” como pensada por Adam Smith e sim com o reconhecimento do papel que o Estado possui para alcançar um bem estar social e diminuir problemas. O livre mercado não iria sozinho resolver todos os problemas da sociedade, mas o Socialismo tão pouco seria a solução.

Não se pretende aqui discutir a história da Social Democracia. O problema levantado aqui é o que o título adiantou. Por que o brasileiro odeia a Social Democracia?

Muitos se asseguram, até longa idade, aos hormônios adolescentes que clamam por uma “revolução” do proletariado como se fizessem parte do Proletariat definido por Marx. Esses hormônios clamam por uma revolução em que apenas o inimigo sangre e aceite passivamente a revolta. A revolução iria colocar um fim ao modelo de economia de mercado. Para esses, a ditadura do proletariado que emergiria iria com certeza terminar com todos os males do mundo. Aos olhos desses a Social Democracia é um modelo que se entrega para aquilo que chamam de “Capital” e deve ser combatido como um modelo “de Direita” (não comentarei aqui esses termos de “Direta” e “Esquerda” que a meu ver são extremamente desnecessários e mais problemáticos do que úteis).

Vários outros colocam as experiências que tivemos como possibilidades para a Social Democracia no Brasil dentro de conceitos como Socialismo e Comunismo – uma banalização desses conceitos que não é nenhuma novidade.  Fernando Henrique Cardoso (FHC) e Luís Inácio Lula da Silva, governos que nitidamente seguiram dentro da lógica da Social Democracia, são apresentados por esses como conspiradores Comunistas que teriam colocado o Brasil em uma política do Café com Leite (leitura que já é pobre mesmo quando aplicada para o período brasileiro conhecido como de Primeira República).

Tratemos no princípio do segundo caso.

NO BOLSONARISMO

Percebo, em minha análise até o dia de hoje, que ao taxar FHC e Lula como Socialistas o que se faz não é querer categorizar ambos dentro daquilo que o Socialismo de Marx ou o Socialismo de Henri de Saint-Simon entendiam como Socialismo. O uso dos conceitos de “Socialismo” e “Comunismo” é apenas político contra uma forma de ver o passado, lidar com o presente e projetar o futuro que os governos com horizontes de Social Democracia apresentaram.

Os intelectuais nas Academias do país se contentam em responder apenas que afirmar os governos de FHC e Lula como Socialistas/Comunistas é uma atitude lunática. Sim, é lunática se for feita por alguém também da Academia, mas quando é feita por um grande número de pessoas, como aconteceu e acontece, é necessário entender.

Os Bolsonaristas entendem que existe ligação entre Lula e FH e classificam os dois como membros de uma “esquerda socialista”. O elo entre Lula e FHC que é percebido, e muito odiado pelos Bolsonaristas, são os horizontes de Social Democracia que vislumbramos com FHC, Lula e Dilma.

Os caminhos da Social Democracia, dentro dessa lógica, estariam ligados com o “Marxismo Cultural” (conceito apresentado no Brasil por Olavo de Carvalho que não cabe discutir aqui, mas que a Academia deveria analisar com seriedade).  

O pensador que influencia grande público do Bolsonarismo, Olavo de Carvalho, realiza a ligação do Marxismo Cultural com a Social Democracia por meio de Eduard Bernstein[1]. Olavo de Carvalho apresenta Bernstein como o “primeiro tucano” em referência clara aos anos de governo e partido de Fernando Henrique Cardoso.

NAS UNIVERSIDADES

Na Academia o ódio contra a Social Democracia é seletivo. Ele existe quando o sujeito é FHC, mas quase desaparece quando o sujeito é Lula. Digo quase desaparece porque ele chegou a aparecer contra Lula nos primeiros anos de seus mandatos. Hoje na Academia parece existir apenas contra Fernando Henrique Cardoso.

O motivo do ódio é principalmente uma das características da Social Democracia: privatizações selecionadas.

A lógica das privatizações na Social Democracia é a de diminuir gastos por parte do Estado para dessa forma possibilitar mais atuação em projetos sociais.

Quando FHC iniciou essa lógica foi prontamente apresentado em diversos trabalhos acadêmicos com um conceito que foi transformado em uma palavra qualquer pelos trabalhos acadêmicos do Brasil. O conceito de Neoliberal foi, e continua sendo, utilizado para se referir aos governos de FHC. Da forma que o conceito é utilizado em trabalhos acadêmicos apresenta tanta consistência quanto o conceito de Marxismo Cultural de Olavo de Carvalho, mas caminho em pesquisa para discutir isso mais profundamente em outro momento.

Por conta principalmente de privatizações o governo de FHC aparece como Neoliberal, ou mesmo o PSDB afirmado como sempre sendo um partido Neoliberal[2], e os três primeiros anos do governo Lula também como um governo que continua o “plano” Neoliberal.

Alguns trabalhos reconhecem os caminhos da Social Democracia nos governos de Fernando Henrique Cardoso e de Lula[3], mesmo que caiam no uso acrítico do conceito Neoliberal.

Não é preciso muito esforço pra perceber que a lógica dos governos FHC e Lula foram vislumbre do caminho pra Social Democracia, mas os acadêmicos preferem utilizar o conceito Neoliberal como um termo qualquer e aplicar para os governos de ambos.

O que se percebe é que para muitos trabalhos da Academia no Brasil toda e qualquer privatização é sinônimo de Neoliberalismo. O que torna a Social Democracia, aos olhos desses, um Neoliberalismo que não aplica todos os “planos neoliberais”. A Social Democracia causa certo ódio para muitos também por aceitar a economia de mercado e não ser defensora de um horizonte Socialista, não ter pretensão de colocar abaixo a estrutura “burguesa” da sociedade. Um ódio pela economia de mercado causa o ódio pela Social Democracia.

HORIZONTES DE EXPECTATIVAS

Penso que no Brasil a Social Democracia é um caminho possível para melhorias. Olhar para a experiência do modelo nórdico e tomar estruturas como as de John Keynes como referências devem ser o dever de casa para aqueles que querem melhorias reais. A Social Democracia brasileira deve necessariamente abandonar o Socialismo como horizonte de perspectiva. Os desejos por Socialismo e Comunismo que já vimos ao longo da história dos animais humanos sempre acabam em ditadura, porque desde suas bases teóricas só funcionam com ditadura (as análises de Friedrich Hayek são interessantes para pensar um Estado que tem o Socialismo como horizonte, mas os próprios escritos de Marx deixam muito claro que a ditadura para os Socialistas é indispensável).

Os governos PSDB e PT são vistos por muitos da Social Democracia pelo mundo como projetos de Social Democracia para o Brasil. O que a meu ver é inegável ao se olhar a realidade. Para muitos observadores fora do país é nítido que o Brasil caminhava rumo a uma Social Democracia[4], caminho cortado com a eleição de Bolsonaro. O apoio de Sociais Democratas europeus a Lula, na época de sua prisão, é instigante para refletir mais sobre os caminhos que sua política abriu para a Social Democracia no Brasil.

A Social Democracia no Brasil deve lutar por melhorias dentro do modelo de economia de mercado, reconhecer o papel do Estado para melhorias sociais, construir uma economia de mercado que leva as questões ambientais como assunto central e não como um detalhe, e defender a Democracia (algo que é óbvio, mas nos dias de hoje deve ser ressaltado).  


Algumas Referências:

GARCIA, Marco Aurélio. PT¿ Socialdemocracia o comunismo?. Nueva sociedad, n. 114, 1991, p. 30-42.


BOITO JR, Armando. A hegemonia neoliberal no governo Lula. Crítica marxista, v. 17, 2003, p. 10-36.

SADER, Emir. 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma. Boitempo Editorial, 2015.

MOLLO, Maria de Lourdes Rollemberg; SAAD-FILHO, Alfredo. Neoliberal economic policies in Brazil (1994–2005): Cardoso, Lula and the need for a democratic alternative. New Political Economy, v. 11, n. 1, 2006, p. 99-123.

VIEIRA NUNES, Ione Cristina; SILVA BRAGA, Lucelma. A reforma da Educação Superior no Brasil: da herança neoliberal de FHC ao legado de Lula. Revista Desafios, v. 3, n. 1, 2016, p. 68-79.




[1] CARVALHO, Olavo de. Do Marxismo Cultural. Disponível em: https://olavodecarvalho.org/do-marxismo-cultural/ Acessado em: 20/06/2020.
[2] Ver: VIEIRA, Soraia Marcelino. O Partido da Social Democracia Brasileira: trajetória e ideologia. Tese de Doutorado. 2012. Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
[3]Ver:
THOMÉ, Débora. O Bolsa Família e a social-democracia. Editora FGV, 2015.
Ver:
MACIEL, Suellen Neto Pires. Os programas de governo do Partido dos Trabalhadores nas eleições presidenciais brasileiras entre 1989 e 2002: uma investigação do tempo presente. 2013.
[4] MILZ, Thomas. A Social-Democracia evitará o próprio suicídio? Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/a-social-democracia-brasileira-evitar%C3%A1-o-pr%C3%B3prio-suic%C3%ADdio/a-45538364 Acesso em: 20/06/2020.

CHESPIRITO E A AVERSÃO A HOMOSSEXUAIS EM CHAVES E CHAPOLIN




Roberto Gómez Bolaños sem sombra de dúvidas foi um artista muito – ou como diria o Chaves, “muitissíssimo” - talentoso. Suas habilidades se mostravam geniais tanto no roteiro quanto na direção e atuação. Com o reconhecimento de seu grande talento veio o apelido que o comparava a um pequeno Shakespeare, se tornou então em “Chespirito”. Entre suas diversas criações estão o seriado Chaves (1971-1980) e Chapolin (1973-1979). Transmitidos no Brasil desde a década de 1980 até o presente momento (2019), os episódios ainda provocam muitas risadas e aumento de audiência. Chaves e Chapolin são vistos como séries com um humor leve, não ofensivo, descrito por muitos como um “sem apelação”. No entanto alguns problemas se apresentam nas séries, problemas que para a época nem eram entendidos dessa forma, mas atualmente podem ser percebidos assim, mas nem sempre são. 

Em um ensaio de Ilan Stavan, professor de cultura latino americana na Amherst College (EUA), no Uol Notícias (LINK) comenta que os programas de Chespirito não tratava questões como violência, aborto ou homossexualidade. De fato, até hoje não vi nenhum programa de Chespirito falando sobre aborto, mas é um pouco complicado negar que a violência não seja tratada em Chapolin e Chaves. Chapolin era um herói, batia apenas em malfeitosos malfeitores, e algumas vezes em quem esperava sua ajuda. Mas isso era sem querer querendo, pois seus movimentos eram friamente calculados. Chaves muitas vezes é um ciclo de violência: Seu Madruga belisca Quico, Dona Florinda dá em Seu Madruga uma tapa, Chaves é sempre culpado e Seu Madruga lhe dá um golpe na cabeça, o menino começa a chorar e entra em seu barril. 

O professor Ilan Stavan provavelmente, quando comenta que o programa não tratava diretamente assuntos como violência, se referia ao fato de isso não ser problematizado. No entanto podemos considerar que era reproduzido, não? E quando o tema era homossexualidade, será que Chespirito realmente não tratava sobre esse assunto? Ou será que o assunto era tratado, mas reafirmando e concordando com discriminações normalizadas no período?

O título desse texto só não é “A homofobia em Chaves e Chapolin” por conta de poder ser visto como tentativa de polemizar. A pretensão do texto é outra, refletir sobre a retratação da questão da homossexualidade nessas duas obras de Bolaños. O objetivo não é fazer pessoas odiarem ou deixarem de assistir os episódios, mas promover ao menos uma breve reflexão sobre como os tempos mudaram e perceber que muitas mudanças são boas. Mas não dá para negar que a retratação sobre o homossexual nas duas séries se dá de forma homofóbica.

Já vi muitas pessoas “estudadas”, como diria minha avó, pensarem que o termo “homofobia” se trata de “ter medo de homossexuais”. Afirmam que como não existe uma pessoa com medo de homossexuais a homofobia não existe. Porém o termo “fobia” na palavra não indica o sentido de “medo” e sim de “aversão”. Um exemplo é como acontece no termo “xenofobia”, ou seja, aversão ao estrangeiro. 

Nos dois seriados de Bolaños o termo aversão descreve bem as reações dos personagens quando entram em contato com alguém que reconhecem como homossexual. Em alguns casos outro termo se encaixa mais para descrever as reações dos personagens, “nojo”. Sim, Bolaños representou em alguns momentos a homossexualidade como algo que causa nojo.

A representação de aversão pode ser observada no episódio “Lo Bueno de Tomar Fotografias Es Cuando Te Salen Movidas” (1978) de Chapolin, que no Brasil possui o título de “Olha o passarinho!” conhecido como “A bailarina Mangova”.

No episódio um jornalista (Carlos Villagrán) invoca o Chapolin colorado e lhe pede ajuda em uma tarefa. O jornalista foi obrigado pelo chefe a fotografar a bailarina russa Mangova (Florinda Meza), no entanto ela nunca deixou ninguém a fotografar. Para conseguir finalmente uma foto da bailarina pede a ajuda de Chapolin, que ao saber do enorme segurança da bailarina (Ruben Aguirre) desiste de ajudar. Chapolin se convence em socorrer o jornalista ao saber que se ele não conseguisse a foto seria demitido. Em um momento do episódio a bailarina conta porque não gosta de ser fotografada. O episódio então se torna uma história dentro da história – bem comum nas obras de Bolaños – que conta um caso ocorrido em um quartel. Em um dos momentos nessa história uma fotógrafa entra disfarçada de soldado e começa a falar com Chespirito – personagem que tem como nome o apelido de Bolaños e também é interpretado por ele. A mulher estava em busca de uma fotografia do general do lugar, Chespirito havia entrado na sala vestindo as roupas do general e a mulher se confunde. Pensando que Chespirito é o general começa a flertar com ele. Chespirito acredita que ela é um homem. 

Nesse momento o personagem Chespirito se mostra incomodado com a situação e diz algo como “Olha soldadinho, o quartel é para homens. Homens como eu, como o sargento Chori... Você conhece o sargento Chori?”, a mulher disfarçada de soldado responde “Claro que sim, somos amigos íntimos”. Chespirito então se assusta dizendo “Tô fora” e sai do lugar. Um pouco depois o personagem Chespirito vê a mulher disfarçada e o sargento Chori muito próximos e a mulher dizendo “Eu pensei que você gostasse de mim como eu gosto de você”. Após declarações amorosas de um para o outro, em quanto Chespirito observava atônito da porta que dava entrada para sala, Chespirito deixa seu cigarro cair da boca e sai correndo do lugar assustado com a situação.

Nesse episódio fica muito claro como a homossexualidade era representada como algo estranho, geradora de aversão. Além disso, um homossexual não era visto como homem pelo personagem Chespirito. 

Em um momento após Chespirito observar o sargendo Chori se declarando para a mulher – que Chespirito pensava ser homem -, o sargento vai até ele e põe a mão sobre seu ombro. Chespirito retira a mão de Chori do ombro e diz “Me solta. Eu vi você conversando com o soldadinho”. Nesse momento a retratação da homossexualidade como algo “nojento” pode ser observada, mas essa representação é muito mais perceptível no episódio de Chaves intitulado “Somos cursis” (1977), no Brasil “O professor apaixonado”.

Enquanto Seu Madruga dá aulas de conquista para o professor Girafales Quico e Chaves espreitam pela janela e entendem tudo errado. Pela situação que observam entendem que Seu Madruga está se declarando para o professor, e esse muito empolgado com a declaração. 

Chaves e Quico conversam sobre o que viram e Quico decide contar tudo para sua mãe. Logo após isso o professor Girafales vai até a casa de Dona Florinda para usar os conhecimentos aprendidos com Seu Madruga. No mesmo momento Seu Madruga sai de sua casa para convidar Chaves para comer um sanduiche, com o dinheiro que recebeu por ter dado aulas de conquista ao professor Girafales. 

Quando Seu Madruga se aproxima e toca o ombro de Chaves, o menino se afasta assustado e passa ambas as mãos em movimentos rápidos sobre o ombro para “limpar” onde Seu Madruga havia tocado. A cena representa nitidamente que Chaves estava com repulsa a seu Madruga apenas por acreditar que ele era homossexual.

O professor recebe uma tapa de Dona Florinda e após essa incentivar o filho “não se meter com essa gentalha” Quico começa seu bordão.“Gentalha, Gentalha...”, mas não chega a completar a ação, para não ter que tocar no professor Girafales. O termo que expressa a reação de Quico nesse momento é “nojo”.

As situações dos dois episódios apresentados são usadas como piadas por Bolaños e na época isso podia até ser visto como normal, mas atualmente sabe-se – ou deveríamos saber – que esse tipo de piada é ofensivo. Não se trata de proibir a exibição da obra ou censurar cenas, mas refletir sobre como os tempos mudaram, refletir que se for para não ofender um grupo de pessoas não custa nada ao humor retirar esse tipo de “piada”. Chaves e Chapolin continuariam sendo engraçados sem essas cenas, na verdade essas cenas retiram a experiência de riso – ao menos para mim. No momento em que a cena de Chaves limpando o ombro aparece toda vez provoca em mim a quebra da imersão no humor. Mostra que a obra é datada, provoca a reflexão sobre o tempo, sociedade e personagens que a produziram. Além disso, provoca a reflexão de como o nível do que é ou não aceitável na TV mudou, e que bom que mudou.

Episódio "O descobrimento da tribo perdida"
Imagem: Reprodução/Multishow
Recentemente, em 2018, a Multishow, canal de TV pago que comprou o direito de exibição de alguns episódios de Chaves e Chapolin, se viu dentro dessa questão. Uma piada com teor homofóbico foi modificado em um dos episódios de Chapolin. O público normal nem notaria, mas os fãs perceberam e pediram explicações. A Multi Show prontamente explicou, deixou bem claro que o mundo muda e às vezes para melhor. Uma responsável se pronunciou:



"Existe, por trás, obviamente, um cunho homofóbico, uma coisa mais machista. Entendemos que era uma piada preconceituosa. Lá atrás, nos anos 70 e 80, era considerada normal, mas felizmente hoje não é mais aceitável. Você não diria isso para o seu filho, estamos em um outro momento da vida. Tentamos suavizar isso"


Escrevi esse pequeno texto por conta de, fora esse caso da Multishow, nunca ter visto nada falando ou refletindo sobre a visão homofóbica presente em alguns episódios de obras de Bolaños. Essas “piadas” causam uma desconexão com a “inocência” do seriado, param o riso e provocam, ou deveriam, reflexões sobre o tempo e sobre a sociedade.

Leituras