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O terrorismo deu início ao século XXI - texto sobre o ano de 2023, escrito em 28 de dez. de 2022

 

28 dez. 2022


Neste mês de dezembro, um jovem de Ananindeua (Pará) foi alvo de busca e apreensão por suspeitas de planejar um ataque contra uma escola do município. Não é o primeiro caso em Ananindeua. Também não é o primeiro caso no Brasil. Infelizmente não seria nem mesmo o primeiro ataque a uma escola brasileira neste ano. Em novembro a notícia sobre ataques às escolas em Aracruz (Espírito Santo) chocou o país. Esses ataques contra escolas podem ser classificados, na maioria das vezes, como terrorismo. O conceito remonta da Revolução Francesa, mas práticas que poderiam ser tidas como tal existem há muito mais tempo - o uso do terror gerado pela violência com um objetivo político. No caso de Aracruz, há indícios que o adolescente dos ataques possuía crenças neonazistas. Mesmo que não tivesse atuado em grupo, sua atuação teria bases políticas.


Em cidades como Ananindeua e Aracruz o uso do terrorismo, planejado ou executado, aparece tal como em cidades como Oxford (Michigan), nos Estados Unidos (em 2021, quando um jovem de 15 anos matou estudantes e um professor em uma escola). Os criminosos de Aracruz e Oxford foram amplamente definidos pelo mesmo termo: terroristas.


Tristemente o terrorismo foi o que deu início ao presente século. Rotineiramente é definido um evento que representa a passagem de um século para outro, um “início”. Em certo texto uma historiadora comentava que o fim da epidemia de coronavírus seria o início do século XXI, que o mundo e as pessoas mudariam totalmente. Discordei quando li e discordo agora. O coronavírus não mudou os rumos do mundo e a mente das pessoas tão drasticamente quanto os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.


Obviamente o terrorismo no século XX era muito presente, em diversos grupos políticos – de religiosos a comunistas. Mas creio que nenhum modificou tanto as coisas quanto o ataque contra a maior potência mundial no início do século XXI. Além de impulsionar o desenvolvimento de novas tecnologias para auxílio de contraterrorismo, novas logísticas de prevenção surgiram. Na mente de muitas pessoas o terrorismo foi crescendo como um grande medo. Inclusive, em 2015, o terrorismo foi registrado como um dos maiores medos da população mundial (em pesquisa do American Pew Research Center). Sem falar na visão ocidental sobre o Oriente Médio, a qual deve os estereótipos ao ataque contra as torres gêmeas. O que afeta desde o cidadão comum até jogos e filmes.


O século XXI deve lutar contra aquilo que simbolizou seu início. O fortalecimento do modelo democrático de economia de mercado me parece ser a melhor vacina contra o terrorismo. A Democracia como vivemos enfatiza a aceitação das diferenças e a solução mais pacífica possível para solução de impasses. O diálogo e o voto, não os tiros e as bombas. Em pleno ano de 2022 não se pode ter no terrorismo uma mobilização política aceitável, seja qual for a causa.


Volto a citar este mês de dezembro. Não na cidade de Ananindeua, mas ainda no Pará. Ou melhor, alguém que saiu do Pará, de Santarém, e foi tentar realizar um ataque terrorista em Brasília. Trata-se de um militante pró Bolsonaro, atual Presidente da República. Ao que parece, o plano era detonar bombas e utilizar armas de fogo para criar possibilidades a um estado de sítio.


Resultando da não aceitação do voto popular, o militante chegou a ver no terrorismo a arma política para seus objetivos. Quando se fala em ataque com bomba é difícil não pensar no Atentado do Riocentro. Aquele em 1981 tentou armar um cenário para frear a reabertura política, incriminando os comunistas. O de 2022 tentou criar o ambiente para acabar com o modelo democrático, para se defender dos comunistas. O atual Presidente não se manifestou enfaticamente contra o ato terrorista. O que não é aceitável, principalmente quando consideramos o que já falou no passado, em sua entrevista ao programa “Câmara Aberta” de 1999.


O terrorismo é inaceitável e o silêncio de um chefe de Estado contra ele também é. Sendo contrário ao Socialismo/Comunismo, só consigo ver que o atual Presidente não é um nome contra os males manifestados na proposta do modelo Socialista. Para se combater Ditaduras não se utiliza outra Ditadura, mas sim o fortalecimento da Democracia. Vejo esse militante terrorista da mesma forma que os comunistas. Possuem a crença de que a Democracia é a verdadeira ditadura e que a violência terrorista é a arma para a verdadeira liberdade.


O terrorismo esteve no início deste século e no fim deste ano. Para o novo ano, espero que não aumente.

Pioneiros do Asfalto

 


Desde aproximadamente o ano de 625 A.C, na Babilônia, a mistura quente denominada asfalto vem se desenvolvendo. No início não era produzido do petróleo, longe disso, e sim de piche retirado de lagos pastosos. Somente no século XX, bem pelo início do século, que essa tal mistura é produzida com o uso de petróleo. 

Menos custoso, ao menos monetariamente falando, o asfalto agora é exclusivamente responsabilidade do petróleo. Na realidade, não tão somente do petróleo. A responsabilidade dessa produção é também dos nobres funcionários públicos chamados de governantes, ou simplesmente políticos. Esses tais políticos aparecem desde as pólis gregas. Aristóteles já dizia que idiota era aquele que não participava da política - hoje o que se vê é o inverso. 

Para felicidade do povo e bem da nação todos podemos (leia-se “somos obrigados por Lei”) escolher entre os menos piores. Só não sabemos quanto tempo ficam no cargo até outro um pouco pior utilizar da democracia para “desdemocratizar” nossa polis do tempo presente, mas isso é detalhe.

Os nobríssimos funcionários públicos governantes, que de tão nobres imaginam-se como sendo os patrões, diante de tão grandiosa construção histórica da tecnologia e da política hoje possuem o fardo de ter de decidir quais misturas utilizar para a produção do tão requerido asfalto. Seria melhor usar cimento asfáltico de petróleo? Ou asfalto diluído de petróleo? Talvez emulsão asfáltica? Coitados dos governantes, eu os imagino tendo que decidir entre o “ser ou não ser”. Deve ser cruel.

Talvez por conta dessa dúvida, que nem os babilônicos ou os gregos precisavam se preocupar, que seja tão comum notar pela cidade os orifícios da dúvida. Nós, simples idiotas (nem sei mais se no sentido de Aristóteles ou mesmo no atual), muitas vezes não conseguimos escapar dessa tão amarga dúvida e acabamos com o automóvel atolado em um buraco.

Mas tem aqueles políticos que próximo de outubro, de quatro em quatro anos, não têm dúvida alguma sobre qual composto utilizar para a produção. Muitas vezes a única dúvida parece ser “onde não asfaltar?”, pois a certeza parece ser que o asfalto é a solução para todos os problemas. Esses que acreditam que a mistura quente é a solução para os problemas existem em muitos cantos do Brasil, de São Paulo, Belém à Ananindeua. Esses pioneiros do asfalto, políticos, funcionários públicos, acreditam que devemos ser gratos quando o asfalto chega até nossas ruas. Claro que devemos ser! Eles tiveram uma dúvida mortal para responder, e ainda mais! Vão ter a mesma dúvida em poucos meses, pois o asfalto não dura 12.

O seu Bernardo, aos seus 56 anos de idade, se acha no direito de reclamar e praguejar simplesmente por ter caído da bicicleta por conta de uma cratera em frente ao Lua de Prata na Cidade Nova. Pois saiba que deveria ser grato, seu Bernardo, afinal de contas, não possuiu nas costas o peso de ter que decidir entre cimento asfáltico, asfalto diluído ou emulsão asfáltica.


Na noite passada chorei pelo Brasil

Na noite passada chorei pelo Brasil. Por Ananindeua. Pela Democracia. Pelo Estado Democrático de Direito.


Não chorei de soluçar. O chorar não foi copiosamente. Foram algumas lágrimas. Mas expressaram um forte sentimento. Uma forte tristeza que sinto. Quando olho pela janela vejo desdém. Pela Democracia. Pelo Estado Democrático de Direito.


Aos olhos parece que a grande maioria dos brasileiros não se importa com a Democracia. Não vejo como novidade, pois historicamente é assim. A maioria nunca entendeu bem a importância do Estado Democrático de Direito. A importância de reprimir aqueles que querem o derrubar, mas sem que o Estado use de forças que não lhe cabem em Lei. Sem censuras não previstas. Sem violência não legalizada.


Lagrimei. Quando digo isso não é estratégia literária. É afirmativa real.


Para muitos historiadores que pesquisam História Antiga, Medieval e Moderna, é um sonho ter acesso a amplo conteúdo produzido por sujeitos do dia a dia. Observar como aqueles sujeitos pensavam. Mas para esses períodos as fontes que permitem isso são escassas, ou mesmo inexistentes. Hoje não.


Por isso chorei. Vendo como pensam as pessoas.

Teoria da conspiração? Desta vez acho que não...



Recentemente ouvi um senhor de idade conversando com um vizinho por aqui. Ele afirmava, com toda a convicção possível, que o 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos havia sido um plano de Bush. O Presidente, George W. Bush, teria “atacado seu povo” com o objetivo de criar a aceitação popular para uma invasão ao Afeganistão. Uma óbvia teoria da conspiração, a qual eu já conhecia há bastante tempo, mas apenas no ambiente da internet. Não esperava um senhor idoso replicando.

Mais recentemente li o jornalista Glenn Greenwald se manifestando a respeito de algo que muitos tratam como teoria da conspiração, mas não é. E confesso que esperava ver amplamente intelectuais e juristas replicando.

Refiro-me a alguns possíveis excessos de poder, e decisões dignas de preocupação, do Supremo Tribunal Federal. Greenwald chamava atenção para perigos de Alexandre de Moraes com poderes tão amplos. Ressalto que com algumas decisões de causar espanto. A prisão e condenação do Deputado bolsonarista, ignorando a imunidade parlamentar, decretada pelo STF em 2022 foi o ápice até o momento. Afinal, o Artigo da Constituição que pacificava a questão é bem claro.

Greenwald mencionou a posição que estavam tendo contra quem criticava os possíveis excessos no STF era semelhante a de Bush após o 11 de setembro: “Nosso país foi atacado! Qualquer um que questione os poderes que invocamos está do lado dos terroristas!”.

Concordo com Glen Greenwald, pois quem critica ações do STF não precisa estar ao lado de bolsonaristas e nem do PCO. Apenas preocupado com o Estado Democrático de Direito.

POR QUE HOJE O BRASILEIRO ODEIA A SOCIAL DEMOCRACIA?


Lula recebe faixa presidencial de FHC em 2003. Foto de Orlando Kissner.

Um conceito que remonta do século XIX, a Social Democracia ganha visibilidade como um modelo de socialistas do século XX que se distanciavam cada vez mais das ideias revolucionárias marxianas e marxistas. Com o passar da história o conceito de Social Democracia torna-se sinônimo de políticas aos modelos de John Keynes. As formas de observar o passado e viver o presente daqueles da Social Democracia compreendiam que para solucionar os problemas de uma economia de mercado a derrubada de suas bases não era a única solução (como prega a teoria de Marx e dos marxistas).

Muito mais viável seria manter um Estado que vive em uma economia de mercado, mas não aos moldes de uma “sociedade livre” como pensada por Adam Smith e sim com o reconhecimento do papel que o Estado possui para alcançar um bem estar social e diminuir problemas. O livre mercado não iria sozinho resolver todos os problemas da sociedade, mas o Socialismo tão pouco seria a solução.

Não se pretende aqui discutir a história da Social Democracia. O problema levantado aqui é o que o título adiantou. Por que o brasileiro odeia a Social Democracia?

Muitos se asseguram, até longa idade, aos hormônios adolescentes que clamam por uma “revolução” do proletariado como se fizessem parte do Proletariat definido por Marx. Esses hormônios clamam por uma revolução em que apenas o inimigo sangre e aceite passivamente a revolta. A revolução iria colocar um fim ao modelo de economia de mercado. Para esses, a ditadura do proletariado que emergiria iria com certeza terminar com todos os males do mundo. Aos olhos desses a Social Democracia é um modelo que se entrega para aquilo que chamam de “Capital” e deve ser combatido como um modelo “de Direita” (não comentarei aqui esses termos de “Direta” e “Esquerda” que a meu ver são extremamente desnecessários e mais problemáticos do que úteis).

Vários outros colocam as experiências que tivemos como possibilidades para a Social Democracia no Brasil dentro de conceitos como Socialismo e Comunismo – uma banalização desses conceitos que não é nenhuma novidade.  Fernando Henrique Cardoso (FHC) e Luís Inácio Lula da Silva, governos que nitidamente seguiram dentro da lógica da Social Democracia, são apresentados por esses como conspiradores Comunistas que teriam colocado o Brasil em uma política do Café com Leite (leitura que já é pobre mesmo quando aplicada para o período brasileiro conhecido como de Primeira República).

Tratemos no princípio do segundo caso.

NO BOLSONARISMO

Percebo, em minha análise até o dia de hoje, que ao taxar FHC e Lula como Socialistas o que se faz não é querer categorizar ambos dentro daquilo que o Socialismo de Marx ou o Socialismo de Henri de Saint-Simon entendiam como Socialismo. O uso dos conceitos de “Socialismo” e “Comunismo” é apenas político contra uma forma de ver o passado, lidar com o presente e projetar o futuro que os governos com horizontes de Social Democracia apresentaram.

Os intelectuais nas Academias do país se contentam em responder apenas que afirmar os governos de FHC e Lula como Socialistas/Comunistas é uma atitude lunática. Sim, é lunática se for feita por alguém também da Academia, mas quando é feita por um grande número de pessoas, como aconteceu e acontece, é necessário entender.

Os Bolsonaristas entendem que existe ligação entre Lula e FH e classificam os dois como membros de uma “esquerda socialista”. O elo entre Lula e FHC que é percebido, e muito odiado pelos Bolsonaristas, são os horizontes de Social Democracia que vislumbramos com FHC, Lula e Dilma.

Os caminhos da Social Democracia, dentro dessa lógica, estariam ligados com o “Marxismo Cultural” (conceito apresentado no Brasil por Olavo de Carvalho que não cabe discutir aqui, mas que a Academia deveria analisar com seriedade).  

O pensador que influencia grande público do Bolsonarismo, Olavo de Carvalho, realiza a ligação do Marxismo Cultural com a Social Democracia por meio de Eduard Bernstein[1]. Olavo de Carvalho apresenta Bernstein como o “primeiro tucano” em referência clara aos anos de governo e partido de Fernando Henrique Cardoso.

NAS UNIVERSIDADES

Na Academia o ódio contra a Social Democracia é seletivo. Ele existe quando o sujeito é FHC, mas quase desaparece quando o sujeito é Lula. Digo quase desaparece porque ele chegou a aparecer contra Lula nos primeiros anos de seus mandatos. Hoje na Academia parece existir apenas contra Fernando Henrique Cardoso.

O motivo do ódio é principalmente uma das características da Social Democracia: privatizações selecionadas.

A lógica das privatizações na Social Democracia é a de diminuir gastos por parte do Estado para dessa forma possibilitar mais atuação em projetos sociais.

Quando FHC iniciou essa lógica foi prontamente apresentado em diversos trabalhos acadêmicos com um conceito que foi transformado em uma palavra qualquer pelos trabalhos acadêmicos do Brasil. O conceito de Neoliberal foi, e continua sendo, utilizado para se referir aos governos de FHC. Da forma que o conceito é utilizado em trabalhos acadêmicos apresenta tanta consistência quanto o conceito de Marxismo Cultural de Olavo de Carvalho, mas caminho em pesquisa para discutir isso mais profundamente em outro momento.

Por conta principalmente de privatizações o governo de FHC aparece como Neoliberal, ou mesmo o PSDB afirmado como sempre sendo um partido Neoliberal[2], e os três primeiros anos do governo Lula também como um governo que continua o “plano” Neoliberal.

Alguns trabalhos reconhecem os caminhos da Social Democracia nos governos de Fernando Henrique Cardoso e de Lula[3], mesmo que caiam no uso acrítico do conceito Neoliberal.

Não é preciso muito esforço pra perceber que a lógica dos governos FHC e Lula foram vislumbre do caminho pra Social Democracia, mas os acadêmicos preferem utilizar o conceito Neoliberal como um termo qualquer e aplicar para os governos de ambos.

O que se percebe é que para muitos trabalhos da Academia no Brasil toda e qualquer privatização é sinônimo de Neoliberalismo. O que torna a Social Democracia, aos olhos desses, um Neoliberalismo que não aplica todos os “planos neoliberais”. A Social Democracia causa certo ódio para muitos também por aceitar a economia de mercado e não ser defensora de um horizonte Socialista, não ter pretensão de colocar abaixo a estrutura “burguesa” da sociedade. Um ódio pela economia de mercado causa o ódio pela Social Democracia.

HORIZONTES DE EXPECTATIVAS

Penso que no Brasil a Social Democracia é um caminho possível para melhorias. Olhar para a experiência do modelo nórdico e tomar estruturas como as de John Keynes como referências devem ser o dever de casa para aqueles que querem melhorias reais. A Social Democracia brasileira deve necessariamente abandonar o Socialismo como horizonte de perspectiva. Os desejos por Socialismo e Comunismo que já vimos ao longo da história dos animais humanos sempre acabam em ditadura, porque desde suas bases teóricas só funcionam com ditadura (as análises de Friedrich Hayek são interessantes para pensar um Estado que tem o Socialismo como horizonte, mas os próprios escritos de Marx deixam muito claro que a ditadura para os Socialistas é indispensável).

Os governos PSDB e PT são vistos por muitos da Social Democracia pelo mundo como projetos de Social Democracia para o Brasil. O que a meu ver é inegável ao se olhar a realidade. Para muitos observadores fora do país é nítido que o Brasil caminhava rumo a uma Social Democracia[4], caminho cortado com a eleição de Bolsonaro. O apoio de Sociais Democratas europeus a Lula, na época de sua prisão, é instigante para refletir mais sobre os caminhos que sua política abriu para a Social Democracia no Brasil.

A Social Democracia no Brasil deve lutar por melhorias dentro do modelo de economia de mercado, reconhecer o papel do Estado para melhorias sociais, construir uma economia de mercado que leva as questões ambientais como assunto central e não como um detalhe, e defender a Democracia (algo que é óbvio, mas nos dias de hoje deve ser ressaltado).  


Algumas Referências:

GARCIA, Marco Aurélio. PT¿ Socialdemocracia o comunismo?. Nueva sociedad, n. 114, 1991, p. 30-42.


BOITO JR, Armando. A hegemonia neoliberal no governo Lula. Crítica marxista, v. 17, 2003, p. 10-36.

SADER, Emir. 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma. Boitempo Editorial, 2015.

MOLLO, Maria de Lourdes Rollemberg; SAAD-FILHO, Alfredo. Neoliberal economic policies in Brazil (1994–2005): Cardoso, Lula and the need for a democratic alternative. New Political Economy, v. 11, n. 1, 2006, p. 99-123.

VIEIRA NUNES, Ione Cristina; SILVA BRAGA, Lucelma. A reforma da Educação Superior no Brasil: da herança neoliberal de FHC ao legado de Lula. Revista Desafios, v. 3, n. 1, 2016, p. 68-79.




[1] CARVALHO, Olavo de. Do Marxismo Cultural. Disponível em: https://olavodecarvalho.org/do-marxismo-cultural/ Acessado em: 20/06/2020.
[2] Ver: VIEIRA, Soraia Marcelino. O Partido da Social Democracia Brasileira: trajetória e ideologia. Tese de Doutorado. 2012. Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
[3]Ver:
THOMÉ, Débora. O Bolsa Família e a social-democracia. Editora FGV, 2015.
Ver:
MACIEL, Suellen Neto Pires. Os programas de governo do Partido dos Trabalhadores nas eleições presidenciais brasileiras entre 1989 e 2002: uma investigação do tempo presente. 2013.
[4] MILZ, Thomas. A Social-Democracia evitará o próprio suicídio? Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/a-social-democracia-brasileira-evitar%C3%A1-o-pr%C3%B3prio-suic%C3%ADdio/a-45538364 Acesso em: 20/06/2020.

O eleitorado brasileiro é o Paradoxo de Giddens?: As problemáticas ambientais não existem mais até estarem diante dos olhos



Na década de 1990 o Brasil foi palco para as discussões globais que tratavam a questão da problemática ambiental. A Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (conhecida como ECO-92 ou Rio 92), realizada em 1992 no Rio de Janeiro, dava continuidade aos debates oficiais de grandes proporções, iniciados em 1972 em Estocolmo, sobre os problemas ambientais. A conferência reuniu representantes de mais de 150 países e pretendeu discutir e construir soluções, em níveis globais, que diminuíssem os danos humanos ao meio ambiente e garantissem a boa existência de gerações futuras. 

Já em 1997 uma pesquisa é realizada pelo IBOPE visando entender as compreensões da população brasileira sobre o meio ambiente. Uma equipe de cem pesquisadores visitaram casas em todo o país questionando homens e mulheres, jovens e idosos, durante dois meses. Os resultados da pesquisa foram apresentados na Teleconferência Nacional de Educação Ambiental, promovida pelo MEC em Junho de 1997. 

Os resultados daquela pesquisa mostraram naquele momento grande preocupação dos brasileiros sobre os problemas ambientais. Cerca de 65% dos entrevistados dizia que a poluição não era aceitável como preço pela garantia de empregos. Esse resultado foi surpreendente na época e com certeza ainda é surpreendente ao olharmos de 2018. O ano de 1997 para o Brasil não foi de melhor situação no setor econômico, mas mesmo assim a pesquisa mostrou que 47% dos brasileiros entrevistados acreditava que o meio ambiente deveria ser prioridade sobre o crescimento econômico.

Uma pesquisa mais recente, realizada pelo Pew Research Center (Washington-DC), de 2015 buscou descobrir quais os maiores medos da humanidade. No geral os medos que ocupavam os primeiros lugares eram o Estado Islâmico (1º lugar) e as mudanças climáticas (2º lugar). Se olhando para a America Latina o medo que aparecia em primeiro lugar eram as mudanças climáticas.

Considerando os resultados da pesquisa de 1997 realizada pelo IBOPE e a pesquisa de 2015 realizada pelo Pew Research Center me pergunto quais resultados seriam obtidos hoje - 2018 - se o IBOPE questionasse novamente a população sobre as questões ambientais.

Para alguém que visita a internet em sites como Facebook, Youtube, Twitter, etc, reconhece que algo um pouco estranho - ou não - está cada vez mais frequente nos comentários de internautas: O aquecimento global não existe, a humanidade não provoca efeito negativo significativo nenhum no planeta, os ambientalistas 'esquerdistas' querem criar impostos para você respirar.

Os resultados da eleição de primeiro turno para à presidência do Brasil em 2018 talvez mostre que o eleitorado brasileiro talvez esteja sofrendo cronicamente com o "Paradoxo de Giddens". O candidato que chegou ao segundo turno em primeiro lugar acredita que o aquecimento global é uma grande conspiração e, se eleito, visa seguir os caminhos de Donald Trump e retirar o Brasil do acordo de Paris.

O grande número de votos no candidato demonstram a diminuição da preocupação com as problemáticas ambientais, e pior, talvez a descrença na existência dessas problemáticas. 

O Paradoxo de Giddens é uma denominação elaborada pelo sociólogo britânico Anthony Giddens. O paradoxo diz que não importa quanto nos falem das ameaças do aquecimento global, todos os avisos e o perigo parecem ser algo irreal. Por conta de os perigos representados pelo aquecimento global não serem palpáveis e visíveis aos olhos ninguém tenta fazer nada. Se as atitudes forem tomadas apenas quando o problema for visível será tarde demais. 

Aí está o paradoxo. Se todos se inspirarem em São Tomé e só acreditarem vendo, talvez quando pudermos ver com os próprios olhos seja tarde demais.

A população brasileira, que em outros momentos se mostrou preocupada com as problemáticas ambientais e a mudança climática, hoje parece desacreditar no discurso sobre os problemas. Até mesmo chegando a acreditar em uma grande conspiração.

O filósofo conservador Roger Scruton em seu livro "Filosofia Verde: como pensar seriamente o planeta" comenta que os discursos em tom apocalíptico de muitos ambientalistas colabora para a descrença nas problemáticas. Afinal, se prometem o fim do mundo e o fim do mundo não chega o discurso passa a ser desconsiderado.

Em uma rápida leitura talvez alguém que leia o livro de Scruton imagine que deve ficar totalmente tranquilo perante as problemáticas ambientais. No entanto, Scruton só apresenta outra forma de lidar com essa questão. Anthony Giddens segue para um lado que visa uma grande intervenção por parte do Estado e Scruton acredita que a visão conservadora pode ajudar a solucionar o problema; cada um deve enxergar o planeta como sua casa, cada um deve fazer sua parte.

Anthony Giddens e Roger Scruton possuem soluções diferentes para a problemática, no entanto, reconhecem que é importante tentar achar soluções e agir. E talvez o mais importante de se enfatizar: acreditam que o problema existe.

O eleitorado brasileiro já há algum tempo consome materiais pelas mídias digitais que pretendem classificar como falso o aquecimento global e defender como insignificante a ação humana no planeta. O maior argumento é "Quando você viu o aquecimento global?". 

Isso é bastante sério em medida que o que está em jogo não é o quanto o aquecimento global é um problema (Scruton, por exemplo, discorda de ambientalistas quanto ao grau da problemática, mas não da existência dela), mas se o aquecimento global é realmente um problema, já que não está visível aos olhos.

Não queria expor tão explicitamente no entanto é um exemplo "material" do Paradoxo de Giddens no eleitorado brasileiro. Abaixo é um print screen de um vídeo presente na Plataforma do Youtube onde Eduardo Bolsonaro, deputado federal que em 2018 se tornou o mais votado da história, comenta sobre a "farsa do aquecimento global". Seu argumento principal é que está em um lugar nos Estados Unidos onde nevou. A partir disso conclui a farsa do aquecimento global.




Talvez se a pesquisa do IBOPE fosse realizada em 2018 a maioria dos entrevistados afirmasse que os problemas ambientais não existem. Na pesquisa de 1997, 95% dos entrevistados disseram que a Educação Ambiental deveria ser obrigatória nas escolas. Talvez daqui há alguns dias os brasileiros estejam defendendo que a Educação Ambiental é doutrinação, e deve ser retirada de todos os níveis de ensino. Pelo menos, até observarem com seus próprios olhos a neve derreter.

Leituras