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Resposta ao canal de YouTube "Física e Afins" - Oposição ao Novo Ensino Médio sem saber o que é o Novo Ensino Médio?


No dia 05 de março de 2024, o YouTube me recomendou um vídeo chamado "O NOVO ENSINO MÉDIO NÃO VALE NADA", do canal Física e Afins. Nesse vídeo, a Doutora em Física Gabriela Padilha Bailas, acredito que Licenciada na disciplina, reage assistindo um clipe de, aparentemente, outra rede social. Esse clipe trata-se de um Professor criticando o Currículo aplicado em uma Escola não identificada.

Porém, em ambas produções, tanto no clipe quanto no vídeo comentado, existem graves erros a respeito do formato do Novo Ensino Médio e da lógica educacional proposta pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação, LDB, Lei Nº 9394/96, pela Base Nacional Comum Curricular e pelo Novo Ensino Médio. Aqui tenho a preocupação, inútil, de ressaltar alguns dos erros apresentados. Articulei alguns materiais bem diretos que orientam a Educação.

O erro primordial é o que inicia o vídeo. O "Professor Luís" argumenta que aquele currículo escolar é definido pelo Novo Ensino Médio. Trata como se itinerários formativos e a aplicação curricular fossem dois elementos definidos pelo Ministério da Educação, que todas as Escolas de Norte à Sul tivessem que seguir de forma autoritária. Utiliza o termo pejorativo de "gradezinha do Novo Ensino Médio". Acrescenta ainda que "a gente alertou" que o Novo Ensino Médio "é uma vergonha, uma palhaçada, um atraso para a Educação".

"O estudante vai poder escolher entre cinco áreas de conhecimento [...] mentira, tá?", disse o Professor quando mencionava que os itinerários formativos podem "oferecer apenas uma área".  O Professor, no entanto, não se atentou para a própria afirmativa. Ele ressalta que "se a Escola quiser" pode oferecer uma área nos itinerários. Acontece que "se a Escola quiser" pode oferecer 2, 3, 4 ou 5. Não existe nenhuma orientação que vise prejudicar os objetivos pedagógicos das Escolas. Vejamos o que o Ministério da Educação explicita da forma mais direta possível a respeito disso:

"Os itinerários formativos podem se aprofundar nos conhecimentos de uma área do conhecimento (Matemáticas e suas Tecnologias, Linguagens e suas Tecnologias, Ciências da Natureza e suas Tecnologias e Ciências Humanas e Sociais Aplicadas) e da formação técnica e profissional (FTP) ou mesmo nos conhecimentos de duas ou mais áreas e da FTP. As redes de ensino terão autonomia para definir quais os itinerários formativos irão ofertar, considerando um processo que envolva a participação de toda a comunidade escolar" (Disponível em: http://portal.mec.gov.br/publicacoes-para-professores/30000-uncategorised/40361-novo-ensino-medio-duvidas).

Fica evidente que as Escolas são responsáveis pela construção de seus itinerários formativos. Ela possui a responsabilidade de construir democraticamente esses itinerários, pois precisa conhecer as necessidades da comunidade escolar.  O que o Novo Ensino Médio fornece são apenas Eixos Estruturantes para os Itinerários Formativos. Vejamos, em um material do CER (Centro Sebrae de Referência em Educação Empreendedora), o resumo oficial de tais Eixos (o material está totalmente condizente com o que mais recente está definido para o Novo Ensino Médio):

"Investigação científica, que abrange o aprofundamento de conceitos das ciências para interpretar ideias, fenômenos e processos que podem ser utilizados em diferentes processos de investigação, com foco na melhoria da qualidade de vida da comunidade.

Processos criativos, que abrangem o conhecimento científico na construção e criação de protótipos, modelos e experimentos que podem apoiar a solução de problemas da sociedade.

Mediação e intervenção sociocultural, que abrangem a mobilização de conhecimentos de uma ou várias áreas para auxiliar na mediação de conflitos e soluções para problemas da comunidade.

Empreendedorismo, que abrange conhecimentos de diferentes áreas que podem direcionar a formação de organizações com diferentes missões, com o foco de oferecer produtos ou serviços inovadores valendo-se da tecnologia." (Disponível no CER ou em:  https://drive.google.com/file/d/1mReN5pR5fD1Z2GiAPeAY3EzCjQEtSBGu/view).

Professores do Grupo SOMOS Educação apresentaram muito bem a lógica desses Eixos - que já é bem explícita nas próprias definições deles - em um vídeo online disponível aqui. É evidente que não é obrigatório a Escola oferecer um itinerário chamado "Empreendedorismo" ou "Investigação Científica". Esses são apenas Eixos. Um Itinerário Formativo é um percurso de formação, no qual existirão disciplinas, oficinas, etc. É possível, por exemplo, no Eixo de Investigação Científica criar um Itinerário Formativo de "Pesquisas científicas baseadas em itens do Enem". Dentro desse itinerário fornecer oficinas como "O que é Ciência?", "Resolução de itens do Enem e compreensão de seus conceitos científicos", ou mesmo disciplinas como "Lógica dos itens do Enem", "Experiências científicas básicas fundamentadas em itens do Enem" ou "Astronomia e Enem". No Eixo de Empreendedorismo é possível um Itinerário de "Meu lugar e atuação no mundo", com oficinas de "Escrevendo meu primeiro livro digital", disciplinas como "Filosofia de vida e planejamento de futuro", oficinas de "Negócios, Leis e impostos".  As oportunidades são enormes e nada limitantes. A Escola quer orientar os Itinerários para maior foco nas disciplinas convencionais? Podem. Querem criar disciplinas para os alunos compreenderem como funciona a Política oficial? Podem.

Agora, observemos o que a Base Nacional Comum Curricular orienta para o Ensino Médio:

"Nesse sentido, cabe às escolas de Ensino Médio contribuir para a formação de jovens críticos e autônomos, entendendo a crítica como a compreensão informada dos fenômenos naturais e culturais, e a autonomia como a capacidade de tomar decisões fundamentadas e responsáveis. Para acolher as juventudes, as escolas devem proporcionar experiências e processos intencionais que lhes garantam as aprendizagens necessárias e promover situações nas quais o respeito à pessoa humana e aos seus direitos sejam permanentes. Em lugar de pretender que os jovens apenas aprendam o que já sabemos, o mundo deve lhes ser apresentado como campo aberto para investigação e intervenção quanto a seus aspectos sociais, produtivos, ambientais e culturais. Desse modo, a escola os convoca a assumir responsabilidades para equacionar e resolver questões legadas pelas gerações anteriores, valorizando o esforço dos que os precederam e abrindo-se criativamente para o novo." (BNCC - Ensino Médio, p. 464). 

Em outros momentos do clipe, o Novo Ensino Médio é descrito como um modelo criado para deixar alunos sem "senso crítico". Mas como isso é possível se em todos os documentos, desde a LDB, isso é definido como objetivo da Educação e de todas as disciplinas (convencionais ou não) do currículo? Basta atentar para a proposta da BNCC sobre a formação dos estudantes do Ensino Médio que articule áreas do conhecimento:

"Laboratórios: supõem atividades que envolvem observação, experimentação e produção em uma área de estudo e/ou o desenvolvimento de práticas de um determinado campo (línguas, jornalismo, comunicação e mídia, humanidades, ciências da natureza, matemática etc.).

Oficinas: espaços de construção coletiva de conhecimentos, técnicas e tecnologias, que possibilitam articulação entre teorias e práticas (produção de objetos/equipamentos, simulações de “tribunais”, quadrinhos, audiovisual, legendagem, fanzine, escrita criativa, performance, produção e tratamento estatístico etc.).

Clubes: agrupamentos de estudantes livremente associados que partilham de gostos e opiniões comuns (leitura, conservação ambiental, desportivo, cineclube, fã-clube, fandom etc.).

Observatórios: grupos de estudantes que se propõem, com base em uma problemática definida, a acompanhar, analisar e fiscalizar a evolução de fenômenos, o desenvolvimento de políticas públicas etc. (imprensa, juventude, democracia, saúde da comunidade, participação da comunidade nos processos decisórios, condições ambientais etc.).

Incubadoras: estimulam e fornecem condições ideais para o desenvolvimento de determinado produto, técnica ou tecnologia (plataformas digitais, canais de comunicação, páginas eletrônicas/sites, projetos de intervenção, projetos culturais, protótipos etc.).

Núcleos de estudos: desenvolvem estudos e pesquisas, promovem fóruns de debates sobre um determinado tema de interesse e disseminam conhecimentos por meio de eventos – seminários, palestras, encontros, colóquios –, publicações, campanhas etc. (juventudes, diversidades, sexualidade, mulher, juventude e trabalho etc.).

Núcleos de criação artística: desenvolvem processos criativos e colaborativos, com base nos interesses de pesquisa dos jovens e na investigação das corporalidades, espacialidades, musicalidades, textualidades literárias e teatralidades presentes em suas vidas e nas manifestações culturais das suas comunidades, articulando a prática da criação artística com a apreciação, análise e reflexão sobre referências históricas, estéticas, sociais e culturais (artes integradas, videoarte, performance, intervenções urbanas, cinema, fotografia, slam, hip hop etc.)." (BNCC - Ensino Médio, p. 472)

Como é possível, depois de ver que tudo isso não apenas é permitido, mas incentivado pelos documentos oficiais, dizer que o objetivo é criar indivíduos sem "senso crítico" e para prejudicar os alunos? As propostas da BNCC e Novo Ensino Médio já eram comuns nas Escolas mais caras do Brasil muito antes da BNCC ou Novo Ensino Médio serem promulgados. Isso ocorre porque a Escola tem grande autonomia na Educação que fornece desde o século passado. Não existe modelo rígido de como uma Escola deve atuar pelo menos desde a promulgação da LDB.

Porém, muitos professores e alunos aparecem reclamando de que a Escola ofereceu disciplinas ruins por culpa do Novo Ensino Médio. Existe um grande problema nessa afirmação. Afinal, todos os documentos oficiais definem que a Escola é que cria seus Itinerários. Por isso não pode ser o modelo de Ensino Médio que cria itinerários para os quais, segundo o vídeo, os professores não estão preparados e são obrigados a ministrar. A partir do momento em que os itinerários são construídos de forma Democrática, os Professores, alunos, pais e demais interessados foram escutados e realizaram propostas. Caso tenham definido que a Comunidade Escolar precisa de um itinerário para o qual os docentes não estão preparados, a Escola possui autonomia de solicitar formação para a Secretaria de Estado ou solicitar outro profissional - formado ou notório saber - para fornecer tal itinerário. Caso a Escola defina que precisa de uma disciplina de "Agricultura local" e os professores acreditam não possuir o conhecimento necessário, é possível articular a contratação de um membro da Comunidade Escolar (como pais de alunos) que trabalhe com Agricultura local e possa - com algum auxílio - oferecer essa formação a partir de seu notório saber no tema. A Escola não precisa se submeter aos possíveis itinerários pré prontos indicados pelas Secretarias. Estas só possuem o Direito de sugerir. A aplicação final deve levar em conta a posição da Escola.

A questão fundamental é a Gestão, que deve ser Democrática e consciente de seus objetivos. Vejamos o que a LDB falava sobre uma Gestão Democrática:

Art. 14. Os sistemas de ensino definirão as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica, de acordo com as suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios:

I - participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto pedagógico da escola;

II - participação das comunidades escolar e local em conselhos escolares ou equivalentes.

[...] 

Art. 26.  Os currículos da educação infantil, do ensino fundamental e do ensino médio devem ter base nacional comum, a ser complementada, em cada sistema de ensino e em cada estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e dos educandos. [a redação de 2013 mudou apenas o termo "clientela" para "educandos", mas o geral deste texto vigorava desde 1996]  

Já se definia grande autonomia para as escolas e o fundamental papel da Gestão Democrática. A nova redação da LDB, de 2023, deixou ainda mais claro a grande responsabilidade e autonomia da Escola perante o processo educacional que oferece. A LDB prevê:

Art. 14. Lei dos respectivos Estados e Municípios e do Distrito Federal definirá as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica, de acordo com as suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios:

I - participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto pedagógico da escola;

II – participação das comunidades escolar e local em Conselhos Escolares e em Fóruns dos Conselhos Escolares ou equivalentes.

§ 1º O Conselho Escolar, órgão deliberativo, será composto do Diretor da Escola, membro nato, e de representantes das comunidades escolar e local, eleitos por seus pares nas seguintes categorias:

I – professores, orientadores educacionais, supervisores e administradores escolares; 

II – demais servidores públicos que exerçam atividades administrativas na escola;

III – estudantes;

IV – pais ou responsáveis;

V – membros da comunidade local.

Esses grupos citados formam a Comunidade Escolar. Eles todos devem ter a voz aceita na formação do processo educacional fornecido pela Unidade de Ensino. A Escola tem a responsabilidade de consultar a Comunidade Escolar, mesmo aqueles que não façam parte oficialmente do Conselho, para orientar seu percurso formativo. Entre essas orientações está a dos Itinerários Formativos e, muito mais importante, está a elaboração do Projeto Político Pedagógico da Escola, que será mencionado a seguir. 

No vídeo, a Doutora em Física menciona que "Todas as escolas do Brasil têm que seguir a BNCC [...] só para deixar bem claro isso". Fato. Porém, Base Nacional Comum Curricular não é Currículo, muito menos Projeto Político Pedagógico. O documento mais importante, a espinha dorsal, de uma Escola é o seu Projeto Político Pedagógico. Afinal:

"A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), em seus artigos 12, 13 e 14, atribui aos estabelecimentos de ensino a incumbência de elaborar e executar, de forma democrática, seus Projetos Pedagógicos. Este documento deve nortear todas as ações pedagógicas de cada instituição e se mantém em permanente discussão e reformulação, na busca de alternativas que possam viabilizar a melhoria da qualidade do ensino" (Ministério da Educação. Disponível em: https://www.gov.br/ines/pt-br/acesso-a-informacao-1/acoes-e-programas/programas-projetos-e-acoes/projeto-politico-pedagogico-ppp).

Para ver o quão fundamental é o PPP, sem o qual a Escola não sabe o motivo de sua existência, basta ver o belo trecho do modelo de PPP, apresentado pelo MEC, quando ele afirma que:

"Embora a lei fale em projeto pedagógico, não se constrói um projeto sem uma direção política, ou seja, um norte, um rumo a ser seguido. Por isso, todo projeto pedagógico é também político. Assim, o Projeto Pedagógico visa orientar todo o esforço de aperfeiçoamento das ações de formação dos alunos e serve de referência a todos os atores institucionais em relação às possibilidades de construção do perfil intelectual e/ou profissional dos estudantes." (INSTITUTO NACIONAL DE EDUCAÇÃO DE SURDOS PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO DO COLÉGIO DE APLICAÇÃO. Disponível em: https://www.gov.br/ines/pt-br/acesso-a-informacao-1/acoes-e-programas/programas-projetos-e-acoes/ppp_ines.pdf)

Esse modelo de Projeto Político Pedagógico, disponível integralmente no link anterior, deixa muito evidente que sem ele uma Escola não sabe o motivo de existir e para que rumo está direcionando os alunos. O Novo Ensino Médio deixa mais evidente o papel fundamental dos Projetos Políticos Pedagógicos quando menciona:

"Os currículos de referência das redes e os Projetos Pedagógicos das escolas que irão definir a organização e a forma de ensino dos conteúdos e conhecimentos de cada um desses componentes, considerando as particularidades e características de cada região" (Ministério da Educação. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/publicacoes-para-professores/30000-uncategorised/40361-novo-ensino-medio-duvidas).

O Professor do clipe e a Dra. do vídeo demonstram desconhecimento total sobre todas as orientações aqui apresentadas - que são básicas para qualquer Gestor ou Professor. O Professor menciona que "Projeto de Vida" é um tema genérico, logo após ter mencionado que o Terceiro Ano é importante para o aluno pensar os rumos da própria vida. Também menciona como genérico o itinerário de "Sociedade Brasileira: passado e futuro", um itinerário que obviamente é uma proposta de articulação das disciplinas de Humanidades, como Filosofia, História, Geografia e Sociologia. O curioso é que menciona isso depois de dizer que História e Geografia foram retiradas do currículo da Escola em questão. Enfatiza revolta também com o aumento da carga horária, que segundo ele impediria um aluno de trabalhar. Porém, como já ficou evidente aqui, a Escola possui total autonomia para solucionar uma questão tão simples como essa, seja reconhecendo o trabalho do aluno como parte de sua formação integral como indivíduo (e com isso cumprindo carga horária) ou de outras formas que forem mais adequadas aos interesses do aluno e PPP.

"Até então o aluno não saía [do Ensino Médio] preparado para nada? [...] O outro era o que, uma perda de tempo?". Para a maioria dos alunos, sim. Infelizmente. Isso ocorre, principalmente, porque os Gestores e Professores não se preocupavam em perguntar aos alunos: "Quem é você, e o que você pensa sobre e para a sua vida?". A prova disso é que um número enorme de Professores afirmam abertamente não estarem preparados para auxiliar um aluno para os caminhos que ele pretende seguir na vida, quando dizem que não foram preparados para ministrar "Projeto de Vida". Quando consideramos que qualquer disciplina de Filosofia da Educação e os documentos desde pelo menos 1996 já orientam sobre a importância da Escola considerar o que pensam os alunos sobre sua vida e auxiliar nisso: Temos que reconhecer que um Professor não preparado para ministrar "Projeto de Vida" nunca esteve preparado minimamente para participar como Professor no processo de Educação.

O Novo Ensino Médio e a BNCC obrigam - como já fazia a LDB - que as Escolas se importem com o que os alunos pensam e querem em suas vidas. Por isso, é completo desconhecimento do funcionamento básico da Educação no país culpar o Novo Ensino Médio pelo Currículo aplicado na Escola sem nem mesmo mencionar o conteúdo do Projeto Político Pedagógico da mesma Escola. Caso não exista PPP ou o Professor desconheça o conteúdo presente nele, aquele Professor e aquela Escola não compreenderam o básico sobre o Novo Ensino Médio. E, para compreender, não era de fundamental importância nenhuma formação longa e complexa ofertada pelo MEC (que se dispõe ainda hoje a ofertar) ou Secretarias de Educação (que também podem ser solicitadas), pois bastava ler os documentos básicos.


Clamo, inutilmente, para que no mínimo os Professores e Gestores leiam os documentos básicos:

Lei de Diretrizes e Bases da Educação:

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm

Base Nacional Comum Curricular:

- Ensino Fundamental - 

https://drive.google.com/file/d/15WH_Ujh9-5-e9FmFQHYRAgZkEjo6TkDV/view

- Ensino Médio - https://drive.google.com/file/d/1qm45nsIz2b-Uvv7a-F-Mvg6vxXDsi33x/view

Documentos de orientação sobre o Novo Ensino Médio:

- Itinerários formativos: https://nossoensinomedio.org.br/wp-content/uploads/2021/04/texto-O-que-sao-os-eixos-estruturantes.pdf

- Lógica Democrática: https://drive.google.com/file/d/1QNuYTcofCqcZ3Af-9j26lRMCiNVUkpst/view

Currículos Estaduais: Ficam abertamente disponibilizados por cada Estado [basta buscar na internet ou enviar e-mail para a Secretaria de Educação solicitando, mas é algo que deveria estar disponível na Escola]. Coloco de exemplo apenas o Currículo daqui do Estado do Pará [que muito me incomoda por ser abertamente baseado em Paulo Freire e Antônio Gramsci, dois autores que baseiam toda sua Educação na lógica marxista. Mas sei que ele não é uma camisa de forças para as escolas e permite liberdade aos Gestores e Professores, principalmente por conta do PPP, algo ressaltado no próprio Currículo do Pará]:https://www.seduc.pa.gov.br/site/public/upload/arquivo/probncc/ProBNCC_DCEPA-12072021_compressed-3b8b0.pdf

Projeto Político Pedagógico: A maioria das Escolas nem possuem, mas é obrigação mínima delas construir um Democraticamente, pois uma Escola sem PPP não sabe o motivo de existir. Esse é o documento mais importante para a prática Educacional. É com ele que a Escola define seu processo educativo. Ele deve expressar as necessidades da comunidade escolar, visão filosófica da Educação naquela unidade, e forma de aplicar o Currículo considerando as necessidades particulares daquela Escola específica.



COP 30 em Belém do Pará, aqui na Amazônia, não serve para nada?

 

Tela de site Agência Pará, publicação sobre projeto do Estado do Pará para Educação Ambiental




Quando a COP 3 foi anunciada em Belém, aqui no Pará, o primeiro pensamento que tive foi "A cidade não tem suporte para um evento desses". Como morador de Ananindeua, cidade colada a Belém, e frequentador da cidade, facilmente se percebe que a capital do Pará terá que mudar muito para ser uma cidade com capacidade, utilitária e de beleza, em receber um evento como o COP 3. Os planos já estão sendo montados. Acredito que a ideia de uma cidade conectada seria o ideal (conectando Belém, por rios e estradas, com as cidades próximas, como Bragança, Barcarena, Marituba, Castanhal, Mosqueiro... Acredito que Ananindeua teria de se reestruturar grandemente para ser uma dessas, e deve!) para conseguir auxiliar no recebimento do evento (o evento de ontem - 26/06/23 - do Governo do Estado mencionou essa estratégia - ver: https://www.youtube.com/watch?v=80oBSZdNnwg). O que seria um ótimo incentivo para algo que já deveria ter um foco bem maior na região há tempos: transporte por vias fluviais.

Em seguida, fiquei refletindo sobre a utilidade prática do evento. Serve para algo? Não estou pensando como alguns comentadores que bradam ser um evento inútil por "Querer dizer o que o Brasil deve fazer com a Amazônia". Creio que é um pensamento de desconhecimento e que não possui a mínima preocupação com - ou entendimento da importância em todos os setores - a questão ambiental. Minha reflexão é outra.

Há algum tempo penso que os eventos internacionais que discutem a questão ambiental não surtem muito efeito prático. Tornam-se apenas discussões sem muita utilidade prática. Existe a possibilidade de países como o Brasil pressionarem por investimentos internacionais. Principalmente sendo sede do evento. O fundo prometido para o país não saiu, a expectativa é que venha nas próximas COP ou na COP 30. Caso a COP 30 não resulte em grande aporte de recursos internacionais para o Brasil caminhar para mais sustentabilidade, o campo de pesquisa em Ambiente, Educação Ambiental e Tecnologia Sustentáveis no Pará não se torne referência no Brasil e mundo, a COP se firmará como uma grande inutilidade.

No lugar de metas internacionais, acredito que para países como o Brasil o mais importante são as discussões e atuações regionais e locais. Uma política de Educação Ambiental foi divulgada pelo Governo do Pará em junho de 2023. Ela apresenta soluções regionais e locais muito boas como o Programa Dinheiro na Escola Paraense, com repasse de verbas diretamente para as escolas (o que anularia o discurso de que Educação Ambiental não é realizada na escola por falta de verbas do Governo). Apresenta coisas duvidosas, como a criação de disciplina obrigatória de Educação Ambiental. A Política Nacional de EA proíbe isso. E creio que o incentivo e empenho do Governo deveria ser para a transversalidade da Educação Ambiental e não criação de disciplina específica. A temática ambiental pode e deve estar presente em todas as disciplinas. Nenhum conteúdo seria perdido para isso ser realidade. Os professores precisam de formação continuada que mostre na prática como inserir essa temática em suas aulas. As escolas devem ser orientadas a funcionarem de uma forma mais orgânica, conhecendo seus objetivos (expostos inclusive em seu Projeto Político Pedagógico, que deve ser elaborado democraticamente pela comunidade escolar). A Educação e prática sustentáveis estão sendo fortemente incentivadas com essa Política. 

Eventos municipais que discutam e proponham soluções para a questão ambiental também são fundamentais. Incentivar a mobilização de grupos, como pequenos pelotões, que discutam e proponham dentro da temática é crucial para a realidade de melhorias em nossa relação com o Meio Ambiente e a Natureza. O consumismo deve ser um dos temas principais - como já apresentava Roger Scruton em seu "Filosofia Verde". O consumo é interligado com toda a cadeia de problemáticas ambientais e a maior ferramenta de solução. 

Espera-se investimentos internacionais na região. Mais parcerias entre as Universidades amazônicas e as, principalmente, da Europa e Estados Unidos da América. O desenvolvimento tecnológico sustentável, de floresta em pé, é o futuro que a população do Brasil ainda não consegue ver. A Educação Ambiental pode contribuir para essa percepção. O Brasil pode ser um jogador importante no cenário global no que diz respeito as tecnologias sustentáveis. No entanto, acredito que a coisa começa no regional/local para o global, e não o inverso. Caso desconsiderem isso, esses eventos se tornam inúteis. Que a COP 30 não seja.

Que a COP 30 seja um ponta pé inicial para a devida atenção com o Museu Emilio Goeldi e com propostas como a do Plano Estadual da Bioeconomia do Pará (ver: https://www.semas.pa.gov.br/wp-content/uploads/2022/11/Plano-da-Bioeconomia-vers%C3%A3o-FINAL_01_nov.pdf).

Uma das ideias também poderia ser tornar Belém - Ananindeua deveria seguir a dianteira nisso - uma das cidades mais arborizadas do Brasil. Sem esquecer a questão da violência... Não é possível pensar sustentabilidade sem pensar junto os altos índices de violências. Escrevo isso como alguém que mora em Ananindeua. O que dá algum conhecimento prático de causa.

As contribuições de Roger Scruton para a Educação Ambiental - PARTE DOIS: UMA CRÍTICA PESADA, MAS NECESSÁRIA

As contribuições de Scruton para a EA - Parte dois. 
Imagem construída a partir da foto disponível 
em fronteiras.com e imagem de divulgação do livro.


Nessa postagem se continua o proposto em “As contribuições de Roger Scruton para a Educação Ambiental - PARTE UM: APRESENTAÇÃO”. Aqui na segunda parte me ponho a apresentar como as críticas de Roger Scruton ao movimento ambientalista de nossos dias podem ser utilizadas para uma auto reflexão dos educadores ambientais, ambientalistas e pesquisadores do campo.

“Os problemas relacionados ao meio ambiente parecem estar tão fora de nosso alcance que ficamos à deriva, perdidos entre opiniões e políticas concorrentes, mas sem termos, de fato, um ponto de apoio, exceto nos rastros de nossas preocupações” (SCRUTON, 2016, p. 7).

Para compreender as propostas de Roger Scruton para o campo ambiental é importante refletirmos primeiramente sobre suas críticas ao movimento tal como se apresenta hoje, grande parte das vezes pelo menos.

A citação anterior é o início do prefácio de “Filosofia Verde: como pensar seriamente o planeta”. Com ela podemos começar a adentrar as críticas de Scruton sobre as visões mais frequentes de muitos ambientalistas. 

Para muitos a problemática ambiental teria se tornado tão grande que nós não teríamos a mínima possibilidade de fazer algo. Scruton apresenta essa noção como uma problemática. O autor destaca que dentro dessa lógica damos créditos aos alarmistas “pois ninguém é tão sombrio sem uma razão” ou aos céticos “uma vez que nos oferecem esperança”. Nesse jogo, as soluções ficariam relegadas às ações governamentais, afinal somos pequenos demais para fazer algo. Surgiriam então os projetos de grande escala deixados “nas mãos dos burocratas”. Scruton aponta contradições nesses quando em um momento anunciam enormes projetos de energia limpa e no outro prometem expansão de aeroportos e rodovias, além de subsídios para a indústria de automobilística. 

Um ponto muito importante nessa crítica de Roger Scruton é a de que “Nenhum projeto de larga escala terá êxito se não estiver enraizado no raciocínio prático de pequena escala”. Sua crítica, e ao mesmo tempo proposta, é de que para a implementação de grandes projetos que funcionem é necessário o “recrutamento” do cidadão comum. O autor se afirma como contra as políticas “de cima para baixo”. 

Essa noção é importante para educadores ambientais no Brasil refletirem. Afinal, nossa legislação ambiental é uma das melhores do mundo, mas a população normalmente não a conhece e dessa forma nem mesmo tem como desenvolver o interesse por ajudar em sua aplicação – já que nem sabe de sua existência. Não me refiro apenas às legislações contra o desmatamento na Amazônia (que posteriormente no livro Roger Scruton reconhece como um dos campos que apenas a atuação do Estado pode suprir um controle mais efetivo, porém com necessidade de conscientização do cidadão comum), mas também as voltadas ao ambiente urbano. 

Em cidades como Ananindeua (PA) ou Belém (PA) não é nada incomum se deparar com uma família que paga alguém para se livrar de alguns entulhos, sejam materiais velhos que precisam de destino depois de uma reforma na casa ou móveis que não são mais usados. Isso muitas vezes se torna incômodo e motivo de reclamação apenas quando esses materiais são despejados na frente, ou muito próximos, da entrada de alguma residência. Porém os mesmos moradores que reclamaram, outro dia estarão pagando alguém para realizar o mesmo feito. Existe legislação que proíbe, o município pode ser alertado para tomar atitudes, mas não existe a conscientização da população sobre a importância de lutar contra essas práticas. Contra as doenças e a “quebra” da paisagem que provocam. Uma das soluções apresentadas por Scruton é a formação de “Pequenos Pelotões”, mas esse é assunto para outro momento, porém necessário apontar que as críticas do autor sempre estão ligadas com propostas. 

Outra crítica levantada pelo autor é a ideia de que o movimento ambientalista seria necessariamente “de esquerda” – aspas do próprio autor. Essa visão seria presente tanto pelos representantes quanto opositores do movimento, mas o autor apresenta um pequeno histórico da preocupação ambiental para mostrar que isso não é real. Volta-se rapidamente para os movimentos da Grã-Bretanha no século XIX, ao ambientalismo estadunidense, ao ambientalismo francês de conservadores e do alemão do início do século XX. Perspectiva importante para pensarmos a complexidade do movimento ambientalista. 

O autor aponta para um fato de relevância para os educadores ambientais e também para os ambientalistas. Esse fato é o de que não apenas em uma economia de mercado “estragos ecológicos” são gerados. Ressalto que para muitos ambientalistas, isso, que deveria ser lógico, não é levado em consideração. Essa lógica é substituída por uma noção de que apenas uma “Revolução” contra o “Capitalismo” poderia resolver os problemas ambientais. Mas o que viria depois? Quando pensam nessa parte, normalmente o “Socialismo” é apresentado como tal caminho. 

No entanto, não podemos apagar da história que os modelos econômicos anti mercado, socialistas, que se instauraram causando tantos problemas quanto podem ser observados no modelo econômico voltado para a economia de mercado. Scruton cita as coletivizações forçadas, a “industrialização caótica”, projetos de remanejamento populacional errôneos e mudanças drásticas no curso de rios e paisagens como alguns dos problemas gerados por modelos econômicos centralizados como na União Soviética e na China. 

Creio que seja importante ressaltar tais problemas ambientais como resultantes das propostas Socialistas de economia. Dessa forma conseguimos perceber que não é uma “Revolução contra o Capitalismo” que vai solucionar todos os problemas do mundo. Os problemas podem aparecer em qualquer modelo econômico e podem ser solucionados também em qualquer modelo econômico, pois esses são feitos por animais humanos e não por divindades. Porém também é necessário reconhecer que na economia de mercado mais soluções foram apresentadas, além das capacidades desse mesmo modelo em incentivar muitas outras (ver “Capitalismo Natural: criando a próxima revolução industrial” de Amory Lovins; L. Hunter Lovins e Paul Hawken. Não confundir com o termo “capitalismo verde” como entendido por críticos da economia de mercado afirmando que as empresas apenas fingem atuação de forma sustentável – que é uma crítica que Scruton apresenta tanto para as políticas globais e nacionais como para o empresariado e principalmente as multi nacionais, apresentando soluções para tal problema). 

Compreender a economia de mercado como o grande problema da questão ambiental, e que a única forma de solucionar tal equação é anulando esse modelo econômico, além de ser uma lógica ingênua é perigosa. Divinizar um modelo econômico em relação a outro ignora que tais modelos são concebidos e geridos por animais humanos, logo, não perfeitos. Focar um movimento ambientalista ou a Educação Ambiental na luta contra “o capitalismo” como única solução possível é seguir os mesmos erros cometidos no passado, que pensavam ser impensável que em modelos Socialistas problemas ambientais aparecessem, afinal: 

“De acordo com o convencional dogma Marxista-Leninista, a degradação ambiental era precipitada pela lógica do capitalismo e seus implacáveis incentivos de lucros” (DÍAZ-BRIQUETS; PÉREZ-LOPES, 2000, p. 17. Tradução minha). 

Scruton, por sua vez, também volta sua crítica para alguns daqueles “que se autodenominam conservadores” no campo político. O autor apresenta que esses muitas vezes avaliam a política com uma lógica estritamente dicotômica: liberdade individual e o controle estatal. Então, a liberdade individual supõe a liberdade econômica, na lógica desses autodenominados conservadores isso implica na liberdade de explorar os recursos naturais para fins financeiros. Roger Scruton mostra que nessa lógica estariam permitidas as madeireiras que devastam as florestas tropicais, as mineradoras que decepam as montanhas, a empresa automobilística que produz interminavelmente gigantes números de veículos, os fabricantes de refrigerantes com sua gigantesca produção de embalagens plásticas. Mas o autor enfatiza que “[...] uma resposta conservadora plausível não sairia em defesa de uma irrestrita liberdade econômica, mas reconheceria os custos dessa liberdade e viria ao encontro de medidas para reduzi-los” (SCRUTON, 2016, p. 14). Destaca a importância da livre iniciativa, mas também do Estado de Direito que as contenha. 

Outra crítica de Scruton que deve ser refletida por todos nós é a de algo que ele chama de “externalização de custos”, Valdo H. Barcelos chama de “exterioridade ao problema”, e eu prefiro chamar de “terceirização de responsabilidade” (até porque em um cenário atual brasileiro o termo “terceirização” causa mais impacto). 

Isso seria jogar os problemas ambientais para outro alguém que não seja “nós”. Esse “nós” pode ser uma empresa, que Scruton comenta que podem externalizar os custos ambientais para outros, ou esse “nós” podem ser você e eu. Afinal uma economia de mercado é feita de consumo, não? Continuamos terceirizando nossas responsabilidades com os grandes desperdícios de água e consumo de exagerados níveis de carne bovina. Afirmamos sempre que quem mais gasta água e desmata é o agronegócio e o responsável por fazer algo também é esse. Mas desconsideramos que a água necessária para criar um pequeno espetinho de carne que consumimos em grande quantidade é o suficiente de água para tomarmos mais de sete banhos. Ou mesmo deixamos para lá o fato de a carne bovina ser a maior causadora de desmatamento na Amazônia brasileira. Preferimos “zoar” com os vegetarianos e veganos. Ou seja, quem ajuda a manter práticas nocivas é o consumo. Consumir empresas mais sustentáveis é direcionar o mercado para esse lado. Não basta terceirizar a responsabilidade para empresas sem levar em conta que a base do funcionamento de qualquer negócio é o consumo – qualquer pessoa que empreendeu em qualquer negócio sabe disso, seja uma loja de roupas ou venda de empadas, mas muitos infelizmente não percebem algo tão óbvio. 

Para tanto, Roger Scruton nos apresenta que: 

“Temos, no entanto, de aprender uma lição com Burke, Hegel e De Maistre: reconhecer que a proteção ambiental é uma causa perdida, caso não encontremos os incentivos que levariam as pessoas em geral, e não somente seus representantes a defendê-la.” (SCRUTON, 2016, p. 22-23) 

Devemos reconhecer que é muito comum ouvir pessoas desprezando a questão ambiental por considerar que isso só vai ocasionar problemas em um futuro distante. “Até lá nem tô mais vivo” é comum de ser ouvido de diversas pessoas, mesmo das que possuem filhos pequenos. O desenvolvimento de incentivos para agir é um fator de importância.

As críticas de Roger Scruton são importantes para pensarmos a Educação Ambiental e o ambientalismo. A partir dessas críticas o autor apresenta suas propostas de solução. Essas visam uma colaboração solidária de conscientização da base local para construção de políticas em âmbito nacional e internacional que realmente surtam efeito, mas esse é tema para outro momento. 

Para terminar, por enquanto, destaco que precisamos perceber a importância de contestar as afirmações de que “Os vizinhos sabem há muito tempo o que fazer e não fazem mais porque as grandes políticas não ajudam” (MENDES, 2020). Olhando ao redor do mundo real percebemos que isso está longe da verdade, pois se assim o fosse a Educação Ambiental se tornaria desnecessária.

Referências:
BARCELOS, Valdo HL. Escritura" do mundo em Octavio Paz: Uma alternativa pedagógica em educação ambiental. Educação ambiental: Pesquisa e desafios, 2005, p. 77-97.
DÍAZ-BRIQUETS, Sergio; PÉREZ-LÓPEZ, Jorge F. Conquering nature: the environmental legacy of socialism in Cuba. University of Pittsburgh Pre, 2000.
HAWKEN, Paul; LOVINS, Amory B.; LOVINS, L. Hunter. Capitalismo natural: criando a próxima revolução industrial. Editora Cultrix, 2002.
MENDES, Moisés. O fim do duelo entre Greta e Scruton. Diário do Centro do Mundo. 2020.
PETERSON, D. J. The Legacy of Soviet Environmental Destruction. 1995.
SCRUTON, Roger. Filosofia Verde: como pensar seriamente o planeta. É Realizações Editora Livraria e Distribuidora LTDA, 2016.

As contribuições de Roger Scruton para a Educação Ambiental - PARTE UM: APRESENTAÇÃO.


Há cerca de cinco meses o meu feed de notícias do Google Chrome  me sugeriu uma matéria que fez meus olhos saltarem. Sem rodeios o título anunciava, como uma vizinha que trás as notícias ruins: "Roger Scruton está com câncer". Talvez a pressa por publicar primeiro, em virtude do impacto que poderia ter em um país que consome o autor cada vez mais, tenha deixado o título seco e a matéria curta.

Roger Scruton. Fonte: Gazeta do Povo.

No primeiro momento pensei que era apenas um rumor, afinal nenhum outro veículo de notícias brasileiro havia noticiado o caso. Estranho, principalmente considerando que o filósofo tinha ministrado palestra no Brasil no mês anterior.  Nas matérias do Reino Unido e Estados Unidos não encontrei nada na época, além da fonte usada pela matéria brasileira. 

Hoje, 13 de Janeiro de 2020, meu feed de notícias do Google Chrome me sugeriu uma matéria criticando os brasileiros que transformaram Roger Scruton em "pai de santo" e sugeria a real leitura do autor.

Achei engraçada.  

Concordo que mesmo os que estão lendo o filósofo – ou melhor, os que dizem que estão lendo - não estão o entendendo. Talvez de propósito.

Depois de olhar as notícias nacionais mudei a nacionalidade do "Google Notícias" para Reino Unido. Baixando a tela e um título fez meus olhos saltarem novamente. "Filósofo Roger Scuton morre aos 74 anos".

Triste notícia para iniciar a segunda-feira, que infelizmente confirma a notícia de meses atrás. 

A partir disso vejo o dia de hoje como incentivo para começar a escrever algo que planejava há algum tempo. Este texto pretende iniciar uma série de publicações para apresentar contribuições do pensamento de Roger Scruton para as reflexões dos educadores ambientais sobre a Educação Ambiental.

PENSANDO SERIAMENTE O PLANETA NO PENSAMENTO DE ROGER SCRUTON

A primeira exposição a ser realizada para tratar sobre o pensamento de Roger Scruton referente às questões ambientais é definir as fontes que serão utilizadas. Afinal a única forma de entendermos o filósofo é tendo como base seus escritos e suas falas. 

Para minha análise focarei em algumas de suas entrevistas nas quais a temática ambiental apareceu como tema, artigos do autor que se focam nessa questão e especialmente no livro “Filosofia Verde: Como pensar seriamente o planeta”. Livro publicado originalmente em 2011 e que chegou ao Brasil em 2016, com tradução de Maurício G. Righi pela Editora É Realizações.

Considerando as vendas na Amazon esse não é o livro mais vendido do autor no Brasil. Fica atrás de títulos como “Conservadorismo”, “Como ser um conservador”, “O Rosto de Deus” e “Pensadores da Nova Esquerda”.

Esse é o momento que comento um detalhe importante para o pensamento ambiental do autor: ele se considera um conservador. Não apenas isso. Era, na verdade continua sendo, o filósofo conservador mais importante da atualidade. Não conheço muitos de seus escritos, pois meu campo de pesquisa é o ambiental e os pensamentos de Scruton sobre essa temática é o que se torna importante para minhas pesquisas. 

Com isso ressaltado é importante destacar a leitura errônea da obra do autor feita por brasileiros. As críticas escritas, em vídeo e comentários de supostos leitores de “Filosofia Verde” que encontrei mostram que muitos dos reacionários de direita no Brasil não estão prestando atenção para o montão amontoado de coisas escritas nos livros lidos. Em muitos momentos os leitores afirmam que o autor disse algo, porém ele escreve o inverso. 

Um desses casos é o consumismo.

Muitos leitores afirmam que Roger Scruton, em Filosofia Verde, confirma que a ideia de que o consumismo é um dos pontos a ser combatido para uma melhor intervenção contra os problemas ambientais seria apenas uma “falácia esquerdista”. Esse erro inclusive é repetido, pasme, na orelha do livro. 

O leitor que entrar no conteúdo do texto depois de ter lido a orelha da versão brasileira já terá iniciado com uma percepção errada do debate proposto por Scruton. Afinal de contas o consumismo também é apontado pelo autor nesse livro como um problema. O autor ainda diz mais, afirma que o consumismo é um problema contra o qual a esquerda e a direita deveriam se unir para combater. 

Um grande exemplo de como a leitura de Scruton sobre as questões ambientais é entendida de forma equivocada por muitos leitores – inclusive de quem escreveu a orelha do livro (espero realmente que não tenha sido o tradutor).

Por enquanto paro o texto por aqui. Gostaria de escrever mais, no entanto esse texto está sendo elaborado no horário de almoço de um estudante do curso de Licenciatura em História do Módulo Integral. Daqui a minutos terei uma prova. Ou seja, continuarei depois.

Até mais e obrigado por ter lido até aqui.

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